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sábado, 20 de abril de 2019

SHORT STORIES

- aqui ningém precisa de esmola somos ricos/ - Acoorrrda  q'uistão  nos rrruuubaaanndo!

 
            Anos 1960. Semana Santa em Tutóia cidade do litoral maranhense.  Nessa época os chamados dias grandes eram guardados com todo respeito. Era pecado tomar-se banho na Sexta-Feira da Paixão,  ou receber dinheiro pela comercialização de algum produto.
 
            Diziam que o Expedito Gonçalves, um cabo da Marinha que serviu na Capitania dos Portos em Tutóia, ficara com o corpo cheio de cabelos porque tinha tomado banho numa Sexta-Feira  Santa. Na nossa infância conhecemos o  Mola Deu, um mendigo que tinha dificuldade em pronunciar a expressão uma esmola pelo amor de Deus. Também comentavam  que a causa disso é  porque cometera  uma atrocidade durante a Semana Santa.  Tudo mito!
Mas mito ou verdade, tinha-se grande respeito pelos dias santificados. Música? Som alto? Nem pensar. As rádios transmitiam apenas músicas clássicas ou religiosas.  E somente  orquestradas.
             A fartura imperava! A troca de bolos, de jejuns, muitas vezes chamadas de esmolas,  entre pessoas amigas,  era uma tradição.
Dona Zila Galas minha mãe adotiva fazia bolos como ninguém! Seus bolos eram bastante apreciados e por isso, nessa época, muita gente levava jejuns para nossa casa  com objetivo de receberem os saborosos bolos que ela fazia. Deu que, certa vez, durante esse período de Semana Santa,  bateram palmas no portão e eu fui atender.  Eu deveria ter entre nove e dez anos de idade. Encontro duas crianças mais velhas que eu, segurando uma bandeja de alumínho contendo cinco espigas de milho (descascadas) e um mói (*) de feijão verde. Ao me verem  disseram: - viemos aqui deixar essa esmola que a mamãe mandou. Eu prontamente respondi: - aqui ningém precisa de esmola não, nós somos ricos!  Quanta ingenuidade! Quanta inocência na cabeça de uma criança!
               As crianças, meio encabuladas  já iam dando meia-volta quando dona Zila apareceu e contornou a situação. Mas de uma coisa eu tinha certeza: podia preparar as costas para as chibatadas no Sábado. Iria romper a aleluia para  aprender a ter humildade diante das pessoas.
              Mas a expectativa de toda a criançada e também de muitos adultos era  o Domingo da Ressurreição,   com a malhação e queima do Judas.
               O Judas era confeccionado na sexta-feira ou no sábado,  e escondido em algum lugar para que não fosse roubado,  e até porque,  tinha o desafio da procura no dia seguinte com mérito para quem o encontrasse.
Nesse dia os irmãos Reubem e Tufy filhos do Nagib, com a ajuda do primo  Maurício ( o conhecido braço de radiola) filho do Fuad, confeccionaram o Judas e resolveram esconde-lo na alcova  do casal Marta e Felipe Zeidan que o povo chamava de carcamanos.
                A família Zeidan veio da Siria, um dos dezenove países que hoje formam o Mundo Árabe.  
               Trabalhadores, prosperaram em Tutóia,  construíram uma grande prole e pelos seus méritos,  fazem parte da história daquele município.  Eram conhecidos como os carcamanos, todavia, é errado se dizer que os árabes,  quer sejam   sírios,  libaneses, ou de qualquer  outro país desse bloco sejam  carcamanos,  tendo em vista que esta expressão é de origem italiana, pois foram  os italianos os primeiros imigrantes a chegar em São Paulo.
                  Mas voltando ao Judas escondido na casa  do casal Marta e Felipe Zeidan, vazou a informação e alguém da minha turma, não lembro quem, foi roubar o tal Judas. Sorrateiramente entrou no quarto, apoderou-se do dito cujo colocando-o sobre o ombro e rumou para dar o fora da casa. Na saída, por causa do escuro do quarto (energia elétrica só até as 22 horas e quando tinha!) e da pressa, o pseudo ladrão  tropeçou num  pinico esmaltado provocando um barulho infernal. Apressado em  deixar o quarto, e talvez  pelo mais  puro azar,  esbarrou na rede de dona Marta acordando a distinta senhora.  Foi quando se  ouviu  num português arrastado e bem alto a seguinte frase  :  - Acoorrrda Feliiipa q'uistão  nos rrruuubaaanndo!
Aí não teve jeito: jogou o Judas no chão e pernas pra que te quero!
 
(*) Mói é uma contração utilizada no nordeste  para "molho", significando uma certa quantidade.
Texto: Antonio Gallas
Ilustração: Foto da WEB modificada pelo  aplicativo "Pencil Sketch (play store).

segunda-feira, 18 de março de 2019

SHORT STORIES


                                              Segunda-feira, dia que de fato começa a semana de trabalho. Domingo, o primeiro dia é, segundo a tradição cristã, para o trabalho. Então, nada melhor do que começar a semana com o espírito leve, alegre, amenizar um pouco as tristezas por tantas tragédias  acontecidas neste ano  de 2019, não apenas no Brasil, mas em outras partes do mundo. É preciso refletir, orar e pedir a proteção Divina que é a maior de todas.  Então vamos sorrir um pouco com mais um episódio de SHORT STORIES .
- a galinha do capitão - 

                                               Na minha adolescência anos 1960/197 era comum subtrairmos (pra não dizer roubar) algumas penosas dos nossos próprios quintais,  e às vezes dos quintais dos vizinhos para saborearmos com rum Montila, conhaque Dreher e até mesmo a famosa aguardente pernambucana Pitu.

                                                Certa feita, em nossas férias (grande parte estudava em São Luís, Teresina ou Parnaíba) fomos mais ousados e resolvemos subtrair a dita  penosa do galinheiro da casa do capitão Batista que era o comandante da Capitania dos Portos em Tutóia. 

                                                  Esperávamos a luz apagar (energia elétrica em Tutóia nessa época só até 10 da noite) para pôr em ação nossa prática delituosa.
                                                  Feito o procedimento fomos depenar e preparar a bichinha na rampa do cais do porto onde todo o aparato já estava a postos, inclusive a garrafa de Pitu.
                                                  Lua bonita, cheia, maré preamar a bater na mureta do  cais provocado aquele barulhinho peculiar,  e nós, a saborear o delicioso galináceo, quando de repente alguém levantou a vista e gritou: - negrada, óia quem taí!
                                                  Só se via era menino pulando n'água àquela hora da noite!
                                                  O capitão, um carioca de quase dois metros de altura, sorrindo exclamou: - eu só vim dizer pra vocês deixarem um pedacinho pra mim...

segunda-feira, 11 de março de 2019

SHORT STORIES



- não é o bicho não... é o gallas de óculos –


A agência 2826-6 do Banco do Brasil em São Bernardo no Maranhão, antes de se tornar classe H era classe I subordinada a agência 0590-8 localizada em Brejo, também no Estado do Maranhão.
A documentação do movimento diário era enviada através de um malote num automóvel conduzido pelo senhor José da Silva Meireles, O Zé Beleza de São Bernardo, homem de confiança da administração da agência. De Brejo, alguns dos documentos seguiam para Chapadinha, em outro automóvel, para de lá, serem levados via aérea para a capital São Luís, quando então seriam processados pelo Centro de Processamento de Dados do Banco do Brazil - CESEC.
As agências ainda não possuíam computadores, e a movimentação diária das contas dos clientes eram escrituradas manualmente em Brejo. O movimento de débito e crédito era lançados nas enormes fichas amarelas (quem trabalhou no Banco naquela época conhecia-as muito bem) que continham o nome e o número da conta do cliente. Tudo isso digitado, ou melhor, datilografado e impresso, nas máquinas mecânicas Burroughs ou Remington que mais pareciam um linotipo, daqueles  que se usava nas gráficas para preparar jornais e os impressos daquela época.
Imaginem só a despesa que o Banco tinha com o transporte terrestre e aéreo, e o trabalho dava ao funcionário lançar manualmente o movimento diário na conta de cada cliente? Mesmo assim, nos balanços semestrais, o Banco sempre auferia grandes lucros!
Com a implantação do I/O remoto na agência de Brejo, a coisa fiou mais fácil. I/O que em inglês  significa Input(entrada) e Output (saída) é um sistema de computação que utiliza a automação apenas para entrada e saída de dados, sem outras funções que os computadores modernos possuem.
Porque a agência de São Bernardo era dependência da agência  de Brejo, nossa presença fazia-se necessária para ajudar nos lançamentos contábeis e  em outros serviços que só podiam ser feitos na agência mãe. Nas sextas-feiras, quando não vínhamos para Parnaíba, aproveitávamos a noite para um bom papo e bebericar  umas geladas na AABB local que ficava na Rua Gonçalves Dias. Às vezes pernoitávamos para no dia seguinte tomar um banho no Riacho Carrapato e saborear a galinha caipira à cabidela, no restaurante de dona Maria às margens do rio que fica a maios ou menos 10 quilômetros do centro de Brejo  e às margens da Rodovia MA 034 que liga a região do Baixo Parnaíba à capital São Luís.
E foi num desses banhos no carrapato que aconteceu algo inusitado: Antonio Odilardo Mendes Carneiro, o capitão Odilardo como nós o chamávamos, exercia na agência a função de supervisor do SETOP (Setor de Operações); natural de Fortaleza, casado com a senhora Valéria tinham três filhos: Daniel Gustavo, Odilardo Filho e Camila Maria.
Pois bem: estávamos nos refrescando nas deliciosas águas do riacho quando de repente resolvi me acocorar e ficar apenas com a cabeça submersa. Usava um par de óculos escuro do tipo Ray Ban. Fiquei ali naquela posição, apenas a cabeça fora d’água, por um bom tempo. O Odilardo Filho que tinha apenas três anos,  e  brincava na margem do riacho,  resolve entrar na água, e ao ver, apenas minha cabeça, receou e recuou um pouco, foi quando o Daniel,  mais velho, com cinco anos,  exclamou:
-  Vem maninho, entra! Tenha medo não! Não é o bicho não... é o Gallas, de óculos!!!
Ninguém aguentou! Todos sorrimos... e essa ficou na minha memória!

Ilustração: Zaira Maria
 

segunda-feira, 4 de março de 2019

SHORT STORIES

- de pijamas no clube -

                    Segunda feira de Carnaval. O ano nem lembro mas deve ter sido pelos idos de  1980.  Tínhamos chegado do "carnaval do Barro Duro" que foi criado pela família Canavieira Conceição e apoiado por  um grupo de amigos que passava férias e carnaval em Tutóia. Nessa época não tínhamos os trio elétricos, e,  muito menos  os barulhentos paredões. As Marchinhas "me dá um dinheiro aí" não era considerada assalto, "você tem que me dar seu coração"   também não era crime passional, "vou beijar-te agora" hoje é  assédio sexual,  "o teu cabelo não nega"  agora é racismo "olha a cabeleira do Zezé" homofobia,  e assim vai.  Essas leis, tiraram parte da beleza do carnaval, infelizmente.
                    O carnaval de Tutóia sempre teve muita animação nos clubes durante a noite  e na praia no domingo e na terça-feira durante o dia, porém,  na segunda-feira,  ficava aquele vazio na cidade. Foi então que o meu compadre Nonato  Canavieira tio da minha esposa e também irmão de dona Marina Fonseca e de minha sogra Zézé Conceiçao,   teve a ideia de instalar umas caixas de som com amplificadores potentes no FIAT 147 GTL do Junior Conceição (até então não era prefeito, apenas funcionário do Banco do Brasil) . Nonato, conhecido em São Luis por Canavieira (o nome da família soa forte!) é um técnico abalizado, muito competente em eletrônica.
                     Instalado o som no carro rumamos para o Barro Duro com objetivo de tomarmos banho na ponte velha e nos divertirmos. A cada ano crescia o número de pessoas que nos acompanhava na segunda-feira neste carnaval que começava ao meio dia. A brincadeira era na ponte velha nos fundos do quintal da residência do ex-prefeito José Matos Silva, no bar do Manoel Patrício. Depois da inauguração da estrada asfaltada mudamos para a ponte nova ao lado do sítio e bar do Régis, (não é o Régis Conceição, mas o Régis do Barro Duro) onde permanece até hoje.
Imagens Blog do Antonio Amaral - Tutóia


                     O Carnaval do Barro Duro é hoje uma das maiores atrações turísticas do município, perdendo apenas para os festejos juninos. Foi emancipado pelo poder público municipal na administração do prefeito Bebeto (Luis Alberto Galvão de Caldas), um dos fundadores da festa. A partir daí, nenhum prefeito pode deixar de realizar a festa, pois a mesma já está integrada ao Calendário Turístico do Município.
                     Pois bem: tínhamos chegado do Carnaval do Barro Duro, eu Cisa minha esposa, e os meninos Anselmo e Andrezza, ainda crianças. Cansados da folia procuramos descansar um pouco para mais tarde irmos ao baile no Nautico Club que fora fundado pelo "bon vivant" Antonio José Neves Rodrigues, quando prefeito de Tutóia. Eu tinha exagerado um pouco nas "louras suadas" e a  Cisa cansada do dia,  resolveu não ir ao baile.  Também não me deu o vale " vale night" e trancou todas as roupas no guarda roupa do apartamento do Hotel do Manelão onde  estávamos hospedados . Deixou fora apenas o par de Pijamas.
                       Esperei  a querida esposa "cair nos braços de Morfeu" e como ela tem um sono até certo ponto profundo, sorrateiramente abri a porta do apartamento, e fui, de pijamas, para o Nautico Clube e dancei, pulei, brinquei, (paquerei? sei lá!)  brinquei até o fim da festa fantasiado usando apenas os pijamas como fantasia.
                        Da minha parte não houve qualquer falta de respeito às famílias que estavam no clube e todos brincamos até o amanhecer com uma banda formada por músicos de Parnaíba. AFINAL, TUDO É CARNAVAL, E VAMOS EMBORA PESSOAL!
Arrastão carregando os foliões para o Carnaval do Barro Duro - 2016 - Imagens Blog do Romério Carvalho

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

SHORT STORIES

 - e haja pum...  haja pum... haja pum...-

Não! Não  é a música "forró numero um"  composta pelos paraibanos Antonio Barros e Cecéu que fez muito sucesso na voz de Luis Gonzaga - o rei do baião. Mas,  um acontecido que aconteceu (meu Deus! um pleonasmo!) na casa de meu pai em Tutóia no Maranhão durante a visita do candidato ao  Senado,  Henrique de La Roque Almeida. La Roque empunhava a bandeira da Aliança Renovadora Nacional - ARENA,  partido que dava sustentação aos governos da chamada ditadura militar.
Além do candidato, estavam também presentes lideranças da política tutoiense e o ministro do Tribunal de Contas do Estado,  Cícero Neiva Moreira de quem meu pai, o comandante aposentado,  Moysés Pimentel era compadre,  por ter levado à pia batismal a garotinha Maria de Nazaré (filha do casal Cícero e Corina) que nascera à bordo de um navio comandado por ele  numa viagem de Nova Iorque do Maranhão para Teresina no Piauí pelas águas do Rio Parnaíba, até então navegável. 
O comandante Pimentel tinha uma forte influência política no município e, por indicação do seu compadre Cícero Neiva fora delegado de polícia diversas vezes  e sempre que alguma decisão política com referência a Tutóia teria que ser tomada, tinham que ouvir primeiro a opinião do coronel Moysés Pimentel, como assim também era chamado.  Nova Iorque é uma cidade localizada no sul do Maranhão e banhada pelo Rio Parnaíba. Fica próxima à Barragem de Boa Esperança e foi fundada em 1886.
Meu pai era um bom anfitrião, e em nossa casa em Tutóia, a sala de visitas  bastante ampla, servia também  para festas como as tertúlias dançantes que realizávamos durante as férias, bailes de carnaval e bailes de posses de prefeitos como o de Felipe Ramos e  do Zilmar Melo na sua primeira gestão. Até então Tutóia não tinha clubes sociais.  
Neste dia, lembro-me bem, as visitas confortavelmente instaladas nos sofás e poltronas da nossa sala, meu pai pediu à Bernarda,  nossa secretária,   que trouxesse café e bolo para servir aos presentes. Os bolos, feitos por minha mãe, dona Zila Galas, com leite de gado in natura e ovos de galinha caipira eram apetitosos e apreciados por todos.
Obedecendo a ordem do patrão, Bernarda, uma simpática  negra, descendente de escravos e  oriunda do povoado Taperinha ou Itaperinha, adentra à sala, trazendo cuidadosamente em seus braços uma bandeja de prata com os petiscos a serem degustados por todos.  Caminhava lentamente para que nada caísse ao chão.  De repente, estanca como que paralisada, comprime-se,  e em seguida ouve-se um sonoro e estrondoso puuumm! Bernarda sorriu e começou a gargalhar. E a cada risada, a cada gargalhada  peidos e mais peidos. Um verdadeiro festival!
Na sala, os presentes, todos também sorriram. Foi um momento hilário. E o café foi servido pela Maria do Casimiro,pois a Bernarda escondeu-se na cozinha e não mais apareceu para as visitas. 


Foto ilustrativa/Fonte: WEB

sábado, 23 de fevereiro de 2019

SHORT STORIES

- um morto muito vivo –
Antonio Gallas
 José Branco era um garçom do Bar e Restaurante “Cabana” um dos pioneiros da avenida Beira Rio, hoje avenida Nações Unidas.
Cabana fora fundado pela senhora Julisa no final da década de 1960 e tinha por especialidade fornecer o caranguejo-uçá (o caranguejo da nossa região) graúdo e da melhor qualidade.  O próprio cliente escolhia os caranguejos que queria degustar. Quebrado (toc-toc), feito torta ou ensopado. Julisa, se não me falha a memória, era esposa do empresário Evandro Madeira.
José Branco, atendia a todos com presteza, o que o tornou bastante popular entre os frequentadores do referido bar e restaurante.  De baixa estatura, meio gordo, gostava de usar um chapéu com abas largas. Era assíduo ao trabalho e só faltava quando no mês de outubro viajava  para a cidade cearense de Canindé a fim de pagar uma promessa feita a São Francisco, do qual era devoto, e tinha alcançado  graça pedida do milagroso santo de Assis. E foi numa dessas viagens que o Zé Branco, como assim o chamávamos, morreu!
Naquela época, não tínhamos os confortáveis ônibus da empresa Guanabara, Yvonetur ou outros, sendo que a vigem era feita nos famosos caminhões “paus de arara”, muito comuns no nordeste brasileiro. Ainda hoje este transporte é utilizado por pessoas de baixa renda em cidades do interior do Maranhão, Piauí e Ceará, que não possuem estradas pavimentadas, infelizmente.  


Os paus de arara são caminhões ou camionetas do tipo Toyota que sobre suas carrocerias são colocadas tábuas para assento dos passageiros e uma cobertura de lona ou  de plástico bastante espesso, para proteger as pessoas do sol ou da chuva.
A viagem era, até certo ponto divertida. Durante o percurso os passageiros chamados de romeiros faziam preces, rezavam padre nossos, ave Marias e entoavam hinos religiosos dentre os quais a famosa Oração de São Francisco: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz...”
                E foi numa dessas viagens, repito, que o Zé Branco, morreu!
Após cumprir suas obrigações religiosas na Basílica de São Francisco, e como ninguém é de ferro, nosso amigo garçom resolveu espairecer e aproveitar um pouco do que aquela cidade localizada no sertão central do Ceará poderia lhe oferecer.
Sentou-se à mesa de um dos inúmeros bares estabelecidos nas cercanias da igreja e pediu ao garçom uma Brahma bem geladinha que seria para matar a sede e amenizar o calor.   Pediu também uma “branquinha” da terra,  para ir dosando com a cerveja.

Hora de retornar a Parnaíba o Zé Branco não apareceu. O condutor do pau de arara não esperou e nem foi procura-lo. ´
Até hoje não se sabe se o Zé Branco de “cara cheia” caiu no sono ou se arranjou algum “rabo de saia” (ou será rabo-de saia?)  que o fez perder o transporte que o traria de volta à Parnaíba. O certo é que ele não veio nessa viagem e o caminhão, ao chegar na guarita, numa curva, tombou e algumas pessoas morreram.
Não havia nessa época Instituto Médico Legal em Parnaíba, todavia familiares dos mortos identificaram seus defuntos e procederam ao sepultamento. Entre os mortos, a família identificou um como sendo o Zé Branco.
Três dias após seu sepultamento, na hora do terço, ele aparece na sua residência, na Rua Caramuru nas proximidades da Praça do Ipase. Ao presenciar  aquele espetáculo, as mulheres rezando o terço, velas acesas,  imagens de santos sobre uma mesa, exclamou: - Oxente! Tão rezando terço pra quem?
Foi um corre-corre danado!  Apavoradas as mulheres adentraram casa a dentre rumo ao quintal e ele sorrindo dizia: - voltem aqui! Voltem aqui! Eu tou vivo... eu tou vivo.
Até hoje não se sabe quem foi enterrado no lugar dele, mas se naquela época tivesse o recurso do celular e do whatsapp isso não teria acontecido pois certamente ele teria avisado à família que tinha perdido o transporte. Ou talvez não, quem sabe...

Canindé possui o maior monumento sacro do mundo. A Estátua de São Francisco das Chagas, inaugurada solenemente no dia 04 de outubro de 2005, tem altura  superior a 30 metros de altura.