Mostrando postagens com marcador HISTÓRIAS DE ÉVORA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador HISTÓRIAS DE ÉVORA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de abril de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA


 
 
 
 





Dourado e Augusto na arte de Gervásio Castro

Marechal visto por Gervásio Castro




Capa da autoria de Gervásio Castro

 
 
 
OUTRAS HISTÓRIAS DE ÉVORA (*)
Elmar Carvalho            
Ao completar 62 anos de idade, Marcos Azevedo publicou o livro Outras Histórias de Évora. Eram textos curtos, densos, que a crítica e os doutos não souberam classificar ao certo se seriam crônicas memorialísticas, contos ou apenas simples “causos” anedóticos. Segue, abaixo, uma pequena amostra desses artefatos literários.
            Marechal
            Vi-o muitas vezes a percorrer as ruas e praças de Évora. Metido em velhas fardas que lhe davam, algumas vezes esfarrapadas e amarrotadas, não andava, marchava. Com um velho quepe na cabeça, parecia participar de um desfile na caserna. Certa feita, em meados de 1980, entrou em minha repartição. Os colegas mais brincalhões foram logo tirando lorotas com ele, chamando-o de soldado, que para ele tinha uma conotação pejorativa e de menoscabo. Vendo que eu não sorria, veio até onde eu estava e disse baixinho: “Eles não sabem quem eu sou... Sou alta autoridade do planalto”. Pedi-lhe, então, que os perdoasse, tendo ele assentido. Perdi-o de vista; achei que tivesse ido para outra cidade. Muito anos depois soube que passara a morar no abrigo para idosos. Fui visitá-lo. Recebi a informação de que fugira, dois dias antes. Como certos animais que voltam para morrer no lugar em que nasceram, o velho Marechal fora morrer em seu pago, no meio dos seus.
            Roberto Carlos
            Seu nome era Raimundo, mas desde que enlouquecera, dizem que por causa de uma paixão não correspondida, adotara o “nome artístico” de Roberto Carlos. Um dia, em minha adolescência, vi-o nas calçadas altas da Zona Planetária, bem na esquina de Júpiter, o principal “planeta”. Fazia mímicas para ninguém ou talvez para o vento ou para espíritos que só ele via. Simulava segurar um microfone; acenava para a turma do gargarejo e para “ouvintes” do fundo da inexistente plateia. Fazia meneios, trejeitos e requebros dignos de um pop star.
Julguei fosse mais feliz do que eu, imerso na ilusão de sua loucura. Muitos anos depois perguntei ao acadêmico e psiquiatra Humberto Guimarães se o Raimundo, o nosso popular Roberto Carlos, não seria mais feliz do que qualquer um de nós, porquanto ele viveria na melhor realidade que imaginara para si. Humberto disse-me que não, pois quando um louco melhora de sua doença e volta a piorar, e sente que vai perder a consciência de si mesmo, sofre muito. Em minhas palavras e interpretação: é como se ele sentisse o aniquilamento de seu mais profundo eu; é como se fosse a morte da consciência de seu verdadeiro eu.
Tobago
A primeira vez que o vi, ele se encontrava no Bar Carnaúba. Fazia gestos e esgares. Acenava e fazia reverências, como se estivesse cumprimentando alguma pessoa no recinto. Não o conhecia e jamais ouvira falar dele. De repente, olhou em minha direção, e acenou. Respondi-lhe, mas notei que ele não me via. Com efeito, seus olhos vagos fitavam o vazio, talvez o infinito de algum ponto imaginário. Informei-me a seu respeito, e soube que, de segunda a sexta-feira, era um funcionário exemplar do Banco do Brasil, rigorosamente pontual e que nunca faltava, sempre monossilábico, introvertido, ensimesmado. Mas no final de semana se transformava naquele excêntrico e sociável boêmio, a cumprimentar espíritos ou, talvez, os fantasmas de si mesmo. Ou talvez fosse apenas um esquizofrênico dos finais de semana, a evadir-se da rotina e do tédio.
Paru
Quando o ricaço Roland Jacob se deslocava para a capital ou de lá retornava, estacionava seu Land Rover na frente de sua filial da velha urbe. Paru, então, doido manso, ia limpar o carro. Quando indagado a respeito, invariável e laconicamente respondia: "Estou lavando meu carro." Tinha o sonho de ser o prefeito da cidade. A principal meta de sua plataforma eleitoral consistia em levar o riacho Pintadas para Parnaíba e em recompensa trazer o "mar da Parnaíba", como ele dizia com ênfase, a abarcar o mundo com os braços bem abertos. Sem se despedir de ninguém, desapareceu da cidade, como por encanto. Filho da estrada e do vento, nunca se soube de onde vi/era, nunca se soube para onde foi. Ou talvez tenha ficado - encantado.
Ester
Hoje bem sei quanto é triste a loucura. Mas em minha infância, sem a devida consciência dessa enfermidade, achava alegre quando a Ester estava “atacada”. Nos surtos mais severos de sua doença, ela parecia a encarnação da própria primavera, pois se cobria de ramos e flores, e saía a dançar, a cantar e a pular pelas ruas de Évora. Ela era a alegoria viva da flora – das folhas, das flores e das ramadas. Um séquito de moleques a seguia. Alguns, mais extrovertidos, dançavam com ela. Às vezes, no paroxismo de sua loucura, tirava a roupa, e mostrava os seus “recantos mais secretos, mais seletos”. Sem dúvida, muitos adolescentes se “vingavam”, na prática do vício solitário. Hoje, tenho arrependimento de ter sentido alegria dos seus “ataques”, que nunca soube se ocorriam apenas na época de plenilúnio. Hoje sei o quanto a loucura é triste. 
Vangogue 
Lindalva fazia jus a seu nome: era linda e alva. Além de alva e linda, era loura e simpática. Sempre que passava pelo seu vizinho Ribamar, doente mental, chamava-o de “meu noivo”, a cujo cumprimento ele correspondia com paixão. Sucede que um dia Lindalva noivou de verdade, com seu primo Clemilton, médico e guapo rapaz, com quem veio a se casar. Riba, quando soube da notícia, surtou, e num impulso trágico, como se fosse um novo e diferente Van Gogh, cortou o próprio pênis, cerce, rente à base, como se dissesse em seu gesto tresloucado que se “ele” não fora de Lindalva não seria de nenhuma outra mulher. Medicado a tempo, a hemorragia foi estancada e ele escapou. O rábula Possidônio Vogado, quando soube do acontecido, exclamou em admirável arroubo retórico: “O Riba vai continuar tendo desejo, porém como um direito fulminado pela prescrição ou como um revólver municiado, mas sem gatilho. Como no dizer do poeta, será um fósforo que não dará luz”.
Mudinha  
Certo dia em que eu estava no Isabelão, ouvi, vindo de uma das espeluncas, um forte alarido, uns gritos que se assemelhavam a um bodejar. Um tanto apreensivo sobre o que poderia estar acontecendo, perguntei a uma das mulheres o que significavam aqueles sons desconexos e guturais, que sequer pareciam humanos. Obtive a seguinte e concisa resposta: “É a muda gozando. Quando ela goza parece que ela ou o mundo vai se acabar. Toda vez é essa latomia!”
Dourado  
Além de boêmio, era compositor, carnavalesco, humorista e exímio churrasqueiro. Em cada período momesco, ele se caracterizava como um personagem nacional, que estivesse em evidência. Certa feita, encarnou PC Farias. Ficou tal e qual. Era múltiplo. Era plural. Dourado era ele próprio e seus “heterodoxos heterônimos pessoanos”.
Romualdo
Era um triste “rapaz alegre”. Patético e passional, era condecorado por inúmeras cicatrizes ao longo dos braços, feitas por ele próprio. Eram as marcas visíveis e concretas das cicatrizes que lhe feriam a alma, a cada amor desfeito ou não correspondido. Pelo que se via estampado na pele, foram inumeráveis as suas decepções amorosas. Viveu intensamente, creio, e cedo morreu. 
Hermes e Afrodite  
Em minha juventude, sempre que eu e meu amigo Raimundo íamos para o povoado Cantagalo, passávamos pela casa de uma sua tia, onde morava uma moça muita feia e triste, sua prima. Era mais do que feia; na verdade, era uma verdadeira assombração. E o que era pior, tinha um buço, que lhe realçava a fealdade. Seu corpo magro era linheiro como uma estaca, e não tinha nada que pudesse atrair um homem, nem mesmo o vestígio dos seios, que parecia não ter. Fui morar em outra cidade e a esqueci. Três décadas depois, ao reencontrar o meu amigo, perguntei-lhe por sua prima feiosa. Ele foi curto e grosso: “Minha prima se tornou primo, e com certeza já comeu mais mulheres do que nós dois juntos”. Creio esse rapaz fosse hermafrodita. E depois, com cirurgia ou não, se tornou Hermes, libertando-se da Afrodite em que seus pais tentaram transformá-lo.
Mistério 
Era a mais bela rapariga do lugar. Contudo, era um enigma; os homens só ficavam com ela uma única vez. E nunca nenhum dos fregueses revelava o que acontecera na alcova. Alguns anos depois, um desses clientes frustrados contou o segredo dessa linda mulher. Apesar de sua enorme beleza e de sua anatomia perfeita e completamente feminina, com curvas acentuadas e belos seios, tinha um avantajado clitóris, que provocava a repulsa da clientela. Terminou se casando, alguns anos depois, com um freguês que lhe apreciou o “defeito”.
Pompoarismo
Quando não se conhecia essa palavra e muito menos se sabia existir o que ela significava, apareceu na cidadezinha uma rapariga que arrebanhou enorme clientela. É que ela tinha uma importante novidade; tinha o que passaram a designar como sendo “bezerro”. E era um bezerro famélico, tal a voracidade e vigor como ele sugava e espremia o membro masculino. Comentava-se que era um verdadeiro torniquete. Quando Possidônio Vogado explicou que a mulher podia ser treinada na arte do pompoarismo, um seu assíduo e ardoroso cliente explicou que o dela era natural, e acontecia quando ela ficava excitada, e ela era muito fogosa. Vogado fez então magistral trocadilho: “Ela não se excitava; se exercitava”.  
Engate 
Romildo passou a frequentar a casa de Dolores, sua namorada. Muito formal e sisudo, ganhou a confiança dos irmãos e pais da moça. Certo dia em que ambos ficaram sozinhos na casa, o namoro, que se não era casto era pelo menos cauto, avançou muito, e os dois terminaram indo às vias de fato, com uma completa conjunção carnal. Quando eles estavam no bem bom, já no segundo ou terceiro round, os pais da moça entraram, de súbito, na sala. Com o susto, Dolores teve uma rigorosa contração vaginal, e ensarilhou o sexo do namorado. Não houve maneira de apartá-los, de sorte que foram levados ao hospital da cidade, numa maca, cobertos por um lençol, onde foi providenciado o desengate. O fato apressou o casamento dos jovens, para que a moça não ficasse mal falada.   
A papa-anjo  
Cremilda era uma “moça velha”, como se dizia na cidade. Não casara e nem tinha amantes. Ganhava a vida ensinando deveres de casa aos pequenos alunos da redondeza. Comentava-se que tinha os seus favoritos, que ela aliciava aos poucos, para os seus propósitos libidinosos.  Só se interessava por menores de doze anos, com medo de engravidar. Fazia o garoto jurar pela salvação de sua alma e pela vida de sua mãe que não revelaria o que se passasse entre eles. Na primeira vez, masturbava-o, para ter certeza de que ainda não tinha líquido seminal. Só após se certificar disso, permitia que o infante a penetrasse, e só até o ponto em que não lhe tirasse o cabaço. Ainda tinha o sonho de se casar virgem, de branco, e com véu e grinalda.  
Morcego  
Foi o maior e melhor goleiro de Évora. Era uma espécie de Higuita antes de Higuita. Em suas “voadas” espetaculares e espetaculosas, parecia planar ou até mesmo levitar. Daí dizer que somente ele, helicóptero e beija-flor paravam no ar. Mais louco que Higuita, inventou o chute jornada nas estrelas, ao chutar a bola vertical e vertiginosamente para cima, com o bico da chuteira. Num desses chutes, a bola venceu a barreira da gravidade, e ganhou o espaço sideral; hoje, orbita a Lua, como satélite de nosso satélite. Às vezes, deixava sua meta e ia para o campo adversário jogar de atacante, chegando ao ponto de driblar e fazer gols.
Nas ocasiões propícias, simulava deixar a bola passar, quando então saltava para trás para executar a defesa, o que deixava os torcedores assustados e com os nervos em frangalhos. Vez ou outra, com a bola encaixada nas mãos ou ao peito, fazia verdadeiras acrobacias, inclusive dando saltos mortais e outras cambalhotas. Seu curioso apelido se devia ao fato de que, não raras vezes, ao saltar para fazer uma defesa, conseguia ficar dependurado no travessão, à imagem e semelhança de um morcego. 
(*) Estes textos fazem parte do anexo ao meu romance Histórias de Évora, e sua autoria foi atribuída ao protagonista Marcos Azevedo, poeta e escritor.
 
 
 

 

terça-feira, 7 de março de 2017

Fonte: Google

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.
 
Capítulo XXXVIII
         
         Epílogo

         Elmar Carvalho

        Com a continuação do namoro, Marcos e Lívia puderam se conhecer melhor, em suas qualidades positivas e defeitos. Sentiam a falta um do outro, e não perdiam a oportunidade de estar juntos. Mesmo em seus silêncios, o rapaz sentia que a moça o compreendia, como nenhuma mulher antes o compreendera.
Passou a lhe frequentar a residência, e observou quão ela era boa irmã e excelente filha, afetiva e atenciosa. Na verdade, formavam uma exemplar família de classe média, muito bem constituída. Seus pais eram unidos, e nunca os viu discutindo, ou um levantando a voz além do estritamente necessário.
Não demorou a compreender que Lívia era a sua “cara metade”, e que parecia feita para ser a sua esposa. Não tinha nenhuma dúvida, era Lívia a sua mulher ideal, conquanto a notasse levemente possessiva e um tantinho ciumenta. Mas esses eram pecadilhos quase virtudes, e a seu ver facilmente perdoáveis. Na verdade, isso quase lhe proporcionava certo júbilo.
No começo do ano, quando fizera 33 anos de idade, ainda com aparência jovem em seu início de maturidade, Marcos combinou o casamento com Lívia para o final de maio, o mês das noivas, embora não tenham formalmente firmado esse compromisso, com trocas de aliança e tudo mais que a praxe recomendava.
Sabia que sua vida mudaria bastante, e que a sua liberdade minguaria, pois Lívia lhe merecia todo respeito, atenção e carinho. Mesmo porque, disso tinha plena consciência, as relações afetivas, sobretudo as conjugais, eram feitas de trocas e correspondências, e se ele desejava esse tratamento, deveria de igual forma tratá-la.
Por isso mesmo, no final de semana que antecedera o de seu casamento, resolveu ir a Évora, para comemorar a sua despedida de solteiro, o seu bota-fora da condição de homem livre, sem freios e peias conjugais. Cauteloso, para não criar nenhum problema antes de seu casório, convidou-a a ir em sua companhia. Mas ela, mulher sábia, ouviu os conselhos da mãe, e o deixou partir sozinho, pois reconhecia que aquele deveria ser um momento só dele e de seus amigos, contanto que não houvesse nenhuma sirigaita pelo meio.
Preparou uma trilha sonora de sua despedida de solteiro, gravada com esmero na melhor fita K7 da época, e seguiu a ouvi-la no toca-fitas de seu Monza prateado. Ao chegar em Évora, um pouco depois do meio-dia daquele sábado, percebeu que a sua despedida seria a de um homem só; a sua despedida seria de si mesmo, ou melhor, da vida livre, leve, solta, sem amarras e cabrestos, que levara até então. Mas sabia que o casamento tinha lá as suas vantagens, senão ninguém casaria, lógico.
Mário Cunha já se tornara carioca há um bom tempo, Fabrício viajara em inspeção a uma de suas lojas e Maurício Vanderley fora passar o final de semana em sua fazenda na Serra do Cachimbo. Marcos, conquanto se policiasse, não pôde deixar de lembrar, com saudade, de Ester, prima do amigo, linda serrana, de estelares olhos azuis, que nunca mais reviu e jamais voltaria a rever.
Resolveu fazer o seu périplo nostálgico, elegíaco, poético, patético e sentimental sozinho. Foi iniciá-lo no Recanto da Saudade, à beira do Paraguaçu. O comandante Augusto se mostrou muito feliz e honrado com a sua visita, e incontinenti lhe trouxe um copo americano gelado e uma cerveja “empoada”, ou “véu de noiva” ou “pescoço de águia americana”; ou, para resumir, gelada até o ponto ideal.
Augusto, já de posse de sua flanela vermelha, para limpar os seus discos de Vinil, pelos quais nutria um ciúme doentio, perguntou a Marcos qual a música que ele gostaria de ouvir, tendo este respondido:
– Por favor, caro amigo Augusto, peço que ponha para tocar o Juramento de Playboy, de Carlos Gonzaga. E, se possível, desde que não aborreça os seus outros fregueses, repita essa música duas vezes, pois estou me despedindo de minha vida de solteiro... No próximo sábado, passarei a ser um homem sério, ou seja, enforcado ou algemado pelo casamento.
Ambos sorriram, e em pouco tempo se ouvia, na bela e inconfundível voz de Carlos Gonzaga:
Eu jurei fazer de tudo pelo nosso amor
Eu jurei deixar a minha vida de playboy
Eu jurei trocar meu pé de bode por um Volks
E as calças justas por um terno de senhor (...)
Quando Marcos foi pagar as duas cervejas que tomara, dom Augusto pediu:
– Por favor, deixe, desta feita, que este pobre dono de bar e garçom pague a conta por você.  
Os dois se abraçaram, e Marcos, após contemplar as águas morosas e amorosas do Paraguaçu, nas quais banhara vezes sem conta, partiu, em seu carro, ouvindo sua exímia trilha sonora, para o centro histórico da cidade, que fora recentemente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Tinha certo orgulho de haver contribuído, com seus artigos e crônicas para que isso tenha acontecido. Participou da comitiva de artistas e intelectuais que entregara fundamentado e circunstanciado memorial, por ele redigido, à diretora desse órgão no estado.
Foi até a Praça Lucas Mendes Furtado, para abraçar o amigo Louro, sempre muito simpático em sua frequentada banca de revistas e jornais. Mais uma vez lamentou que um alcaide, “prefeito jumento e jumento perfeito”, como vociferou notável poeta satírico, a tenha destruído, e reconstruído em linhas modernosas, tão diferentes do traçado belo e elegante, que lhe marcara a infância, a adolescência e a juventude.
Quanta saudade sentia da velha praça, dos momentos que ali passara. Lembrança das quermesses, dos volteios, das primeiras namoradas, dos primeiros amores tão cheios de mágoas... Quem lhe traria de volta o belo e velho coreto e a sua linda cúpula? Quem lhe traria de volta a saudosa pérgula, em cujo tanque sinuoso os peixes e a tartaruga nadavam, provocando-lhe tanto encantamento em seu tempo de criança? E o odorífero caramanchão, em cuja sombra aconchegante estivera algumas vezes, a abraçar e beijar, com muita ternura, a inesquecível namorada de sua perdida inocência?
Tudo, como no filme, o tempo levara, menos em sua memória, “lâmina de desassossego / cornucópia insana insaciável / a jorrar o passado / que não morre nunca / sempre ressuscitado / no eterno regresso / a nós mesmo”. Olhou em volta da praça. Alguns casarões foram demolidos, por ignorância dos donos ou por apego aos metais.
Pensou nos amigos de outrora e do futebol. Alguns partiram para lugares distantes, em busca de melhores dias, iludidos, muitas vezes, por falsas promessas e acenos enganosos de sereias. E os amigos mortos, que nos acompanham cada vez mais vivos? Amigo, como diz a canção, é coisa para se guardar, no lado esquerdo do peito.
Reviu o prédio onde funcionara o Évora Clube. Lembrou as tertúlias dançantes e as gatinhas de sua época, jovens, belas e felizes. Hoje, tudo era apenas saudade. Saudade de uma época morta, que não mais existiria, em que fora tão emotivo e tão sentimental. A matriz ainda se mantinha bela e imponente, e isso lhe trouxe mais recordações. Seguiu a pé para a Zona Planetária, que ficava bem ali, a dois quarteirões apenas.
Teve um choque. Era o início do pôr-do-sol; as nuvens já se mostravam avermelhadas e a melancolia já se lhe infiltrava na alma, quando viu   que vários casarões ou “planetas” haviam caído. Um passante lhe informou que a velha zona meretrícia tombara durante uma chuva torrencial, um verdadeiro dilúvio que desabara sobre Évora, dois dias atrás. Não bastasse o aguaceiro, uma violenta ventania açoitou a cidade, fustigando de forma impiedosa as velhas casas do lupanar.
Marcos não teve como não lembrar os versos iniciais de A Zona Planetária:
Anfion percorre os sulcos
dos discos das vitrolas e as
emoções são alinhadas pedra a pedra.
Apolo é qualquer moço feio
que nos vitrais Narciso se julga.
(...)
Nas calçadas altas da Zona Planetária
meretrizes expõem suas carnes
em varais de açougues imaginários
aos transeuntes ou faunos eventuais
Ao olhar aqueles escombros, ao andar pelas ruínas das telhas e dos frágeis adobes dos velhos cabarés, onde andara muitas vezes em sua ardente adolescência, sentiu-se o rapaz o próprio Jeremias, da evocação do poema Saudade, de Raimundo Correia:
 Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;
Em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...
Marcos Azevedo parecia ouvir os acordes vívidos, vibrantes e, contudo, melancólicos da marcha turca Ruínas de Atenas, do inigualável Beethoven, que não fazia parte de sua trilha temática. Sentiu então, como jamais sentira antes e como jamais sentiria depois, o pungir agridoce da saudade. Pressentiu que a sua vida e a de Évora tomariam novos rumos.
Os punhais de seda da saudade lhe golpearam as entranhas mais profundas de sua alma. Punhais de seda, sim, macios sim, mas que feriam, como um néctar venenoso – doce, inebriante e letal.

domingo, 22 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.
 
Capítulo XXXVII

Seus olhos são negros, negros
 
Elmar Carvalho

Não se pode dizer que Marcos tenha sido insensível ao filho que Madalena lhe disse levar em seu ventre para as Alterosas. Apenas aceitou como fato consumado e irreversível a circunstância de que talvez nunca o veria e de que essa criança seria criada por ela e pelo marido, sem a sua participação e sem a sua lembrança. Contudo, alimentava a esperança de que algum dia poderia ver o filho, ainda que incógnito e à distância.
Muitos anos depois, quando Marcos já completara cinquenta anos de idade, e exercia, pela segunda vez, a função de delegado da Receita Federal, recebeu, em seu gabinete, a visita de um guapo rapaz, que se anunciara como uma pessoa que desejava tratar de urgente assunto pessoal. O jovem, bem vestido e elegante, após os cumprimentos iniciais e apresentação, com certo embaraço e discreta hesitação, lhe contou que era formado em medicina, como seu pai, e era filho de Madalena.
Disse que o pai, quando sentiu que estava à morte, um ano atrás, pedira à mulher que, após o seu falecimento, revelasse a Lucas da Mota Dias Júnior, que lhe herdara o nome e a profissão, quem era seu pai biológico. Recomendou que o filho o visitasse, caso o desejasse. O rapaz, após colher as necessárias informações da mãe, quando esta lhe revelou o segredo familiar, fez pesquisas na internet, tendo conseguido o endereço funcional de Marcos, sem maiores dificuldades.
Desejando ser sintético e não querendo emocionar o meu leitor, direi que ambos se comoveram, se abraçaram e mesmo derramaram discretas lágrimas. Marcos o convidou para se hospedar em sua casa, mas o rapaz, que viera acompanhado de sua jovem esposa, em viagem de lua de mel, preferiu ficar hospedado no Luxor Hotel, no centro da cidade.
Todavia, aceitou almoçar com o pai, na residência deste, onde foi muito bem recebido por sua esposa e pelos dois filhos do casal. Coroando tudo, em perfeito final feliz, após conversa e deliberação entre eles, Marcos foi com Lucas ao Cartório competente onde o reconheceu como filho. Os expedientes e termo foram enviados ao cartório de Belo Horizonte, onde Lucas fora registrado.
Feitas as averbações, o rapaz passou a constar como filho de Lucas da Mota Dias e de Marcos Azevedo, seus pais afetivo/adotivo e biológico. Pouco se falou em Madalena, mas o jovem médico informou que ela se encontrava em bom estado de saúde e ainda se mantinha bela e em forma. Pai e filho passaram a se comunicar, com admirável frequência, por telefone e pelas redes sociais da internet, inclusive com envio de fotos familiares.
*   *   *
Marcos nunca esqueceu a linda e loura paranaense de olhos de esmeralda. Ela lhe ficou como uma bela e inatingível miragem de sua adolescência. Seu pai fora transferido para outra loja, sediada na capital, e ele não mais a reviu. Porém, mais de década depois, quando ele já residia na capital voltou a vê-la, talvez por acaso, se é que o acaso existe.
Estava, em companhia de Antônio Francisco Sousa, colega fiscal, assistindo a um artista de rua, quando uma magnífica balzaquiana, de cintilantes cabelos louros e refulgentes olhos verdes, começou a olhá-lo de forma insistente e intensa. Embora estivesse acompanhada de uma menina de cerca de cinco anos, chegava ao ponto de quase se voltar para trás, para melhor fitá-lo.
Ele também a fitou, com intensidade e alumbramento, com paixão e ternura no olhar, mas logo convidou o colega a se retirarem, temendo  este notasse alguma coisa. Mas, não andaram muito, Antônio Francisco, que também era perspicaz cronista, lhe perguntou, com ar divertido e malicioso:
– Marcão, você pensa que eu não vi, que eu sou cego e insipiente? Quem é aquela suntuosa e esplêndida “balzaca”, com aquela linda aliança no anelar esquerdo, que te olhava com tanta insistência e admiração? Parecia te conhecer e estar cheia de amor para dar...
Marcos, recordando-se dos seus tempos de adolescente, preferiu responder de forma enigmática e poética:
– É um fantasma, um vulto de mulher que me persegue desde minha adolescência. Prefiro deixá-la numa torre ebúrnea, alta, distante, e inalcançável como um unicórnio, para que em mim permaneça indelével a nostalgia de quanto a amei, e de quanto a fiz inatingível em minha timidez e loucura de poeta adolescente, embora ela também me quisesse... Assim foi melhor, porque sempre permanecerá a doçura do enlevo e da devoção, e jamais a amargura da decepção... 
 
                           *   *   *

Quando Marcos completou 32 anos de idade, assumiu o cargo de auditora-fiscal uma moça de nome Lívia Maria. Esbelta, de boa estatura, chamava a atenção por sua beleza e simpatia. Embora concentrada nos serviços que desempenhava e focada em seus deveres funcionais, tinha senso de humor e o usava com inteligência, discrição e notável senso de oportunidade. Fora analista na Justiça do Trabalho. Corria o boato de que tinha um namorado ou noivo em sua antiga repartição.
O rapaz logo percebeu que, além de diligente em seus deveres funcionais, ela tinha bom caráter e uma exemplar formação moral, mas sem preconceitos e farisaísmos. Nas horas de folga, estudava com afinco a legislação tributária, especialmente as mais direcionadas a seu cargo. Tratava todos os contribuintes com urbanidade e presteza, sobretudo os mais humildes.
Quando Marcos entrava em discussão intelectual com algum colega, ela parecia admirar a cultura e a capacidade argumentativa dele, a sua capacidade de análise, a maneira como ele falava das variáveis que poderiam ser seguidas e de suas possíveis consequências. Poucas vezes ela participava dessas controvérsias, avessa que era a polêmicas e dissensões.
Todavia, em suas poucas e comedidas intervenções, demonstrava sempre conhecimento da matéria e muita racionalidade em seus fundamentos, sempre pautados pela lógica, proporcionalidade e razoabilidade. Uma vez ela confidenciou ao colega que o que mais admirava num homem era a inteligência e o caráter. E, se não fosse querer demais, o bom humor.
Algumas vezes, quando fazia um novo poema, e se encontrava bem humorado e eufórico, o rapaz o recitava para um ou outro colega interessado. Lívia parecia ouvi-lo com admiração e certo embevecimento. Ele, para testar os seus pruridos de pudor e talvez preconceitos, quando fez um poema erótico, aliás, inspirado em sua beleza sinuosa, lhe entregou uma cópia, e ficou a lhe observar as reações faciais.
Notou que ela enrubesceu levemente, talvez pressentindo ser a musa daqueles versos eróticos ou por estar sendo observada, mas o leu com muita atenção e sem demonstrar contrariedade. Fez duas ou três perguntas, e em seguida emitiu comentários argutos e pertinentes, em que se percebia a sua inteligência e os seus conhecimentos de quem gostava de literatura, conquanto não fosse poeta ou escritora, mas assídua leitora de poemas, contos, crônicas e romances, como esclareceu.
Certa ocasião, antes do início do segundo turno, Marcos foi até a sua sala. Encontrou-a sozinha. O rapaz, apesar de não cultivar a vaidade, percebeu que ela o olhou de cima a baixo. Pareceu admirar o que viu. O rapaz a consultou sobre certo assunto de trabalho, sobre o qual tinha dúvida, e depois lhe contou uma de suas anedotas engraçadas, supostamente verídicas, ao menos em parte, retornando a seu local de trabalho. Ficou pensando naqueles cabelos negros, ondulados, e naqueles olhos negros, cheios de fascínio e mistério, que lhe faziam recordar os versos do condor Castro Alves: “Teus olhos são negros, negros, / Como as noites sem luar... / São ardentes, são profundos, / Como o negrume do mar”. Seu pensamento divagava, como a barcarola do poeta.
A moça foi em seu encalço. O rapaz também estava sozinho em sua sala, sentado à sua mesa, com o olhar sonhador, pensativo. Ela, às suas costas, pousou as mãos sobre seus ombros, afagando-os com muita suavidade. Marcos ficou surpreso, porquanto Lívia sempre fora muito contida e discreta em seus gestos e palavras. Não sabendo bem o que fazer, pousou as suas sobre as dela, que não as retirou.
Porém, quando Marcos se levantou e tentou lhe afagar o rosto, ela se afastou e disse, com suavidade, mas com voz firme e peremptória:
– Não, Marcos, não... Eu te toquei porque te amo, mas você tem uma linda noiva, com a qual vai em breve se casar.
Para não entrar em delongas tão enfadonhas quanto desnecessárias, direi apenas que nesse mesmo dia Marcos terminou o noivado, que, por sinal, já vinha muito morno, quase adormecido, e logo iniciou apaixonado romance com Lívia, que se mostrou terna, carinhosa e ardente, como ele sempre sonhara

sábado, 14 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA


Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.


Capítulo XXXVI
E assim se passaram os anos

Elmar Carvalho

Quando Marcos concluiu o curso ginasial, encontrou uma turma de ginasianos que se comprometeu a dar continuidade ao jornal mural O Arauto. Conseguiu ainda publicar o jornal mimeografado O Liberal até o final de seu curso de Direito. Já então Mário Cunha fora morar no Rio de Janeiro, onde seu talento artístico foi reconhecido, passando a trabalhar como capista e ilustrador de grande editora nacional, que publicava revistas e livros didáticos e literários. Fabrício, que já vinha auxiliando seu pai na administração de sua loja de eletrodomésticos, fora cursar Administração de Empresas na capital.
Em virtude de O Liberal ter uma linha editorial independente e criticar com contundência as três esferas de governo, terminou perdendo vários anunciantes, o que foi inviabilizando a publicação regular do jornal, que foi espaçando cada vez mais a sua periodicidade, até o seu extemporâneo último número, cujo editorial teve o título poético de O canto do cisne, em que anunciava melancolicamente a sua própria extinção. Nesse número, a exemplo do que fazia nos demais, denunciou várias mazelas e corrupções da política estadual, nacional e municipal, além da derrubada e descaracterização de vários prédios e logradouros do patrimônio arquitetônico e artístico municipal.
Com a decadência do extrativismo e da construção de estradas asfaltadas, interligando as cidades circunvizinhas, a navegação do Paraguaçu foi definhando, até quase extinguir-se de todo. Já não se viam as grandes chalanas, barcaças e alvarengas ancoradas no cais do Porto do Charque, cujo nome era devido às charqueadas que ali existiram num passado já distante. As duas maiores indústrias de óleo de babaçu e de cera de carnaúba – a Vegecera e a Teles Bacelar – entraram em processo falimentar.
Quando James Cavalcante Taylor, proprietário da primeira, parou suas máquinas e caldeiras, seu grupo empresarial já estava em grandes dificuldades financeiras; disso resultou ficar em atividade apenas a matriz da Casa Britânica, fixada em Évora, que ainda resistiu por alguns anos. Carlos Teles Bacelar, por sua vez, emborcou o facho de suas fábricas de cera e de óleo babaçu; passou a fabricar outros produtos e diversificou suas atividades.
Os pequenos fabricantes, geralmente pequenos e médios fazendeiros da região, também não puderam prosseguir com essa produção cerífera. Outros produtos, cultivados ou coletados, como jaborandi, tucum, oiticica, babaçu, maniçoba, algodão, ao longo dos anos, também perderam valor comercial, e foram substituídos por outros produtos, naturais ou sintéticos. A grande fábrica têxtil dos Dias Bezerra, que comprava quase toda produção algodoeira do entorno de Évora, entrou em colapso, e não mais se viu penacho de fumo em sua imensa e suntuosa chaminé.
Com a instalação de grandes lojas de departamento em Évora, com preços mais atraentes e sistema de crediário de prazo mais alongado, muitas lojas concorrentes locais, de nomes imponentes como Império dos Móveis, Ditador da Moda, Palácio de Variedades, fecharam as portas. Os chamados profetas do apocalipse anunciaram que a cidade entraria em total decadência, e passaram a chamá-la de “a cidade do já teve”, de “bela adormecida”, de “finada Princesa do Paraguaçu”, etc.
Contudo, o rebate das trombetas foi falso, e os profetas apocalípticos fracassaram em seus presságios. Tal como aconteceu com outras cidades de mesmo porte, Évora voltou a se desenvolver em outros setores, sobretudo no turismo, prestação de serviço e comércio. Assim, surgiram novos hotéis e pousadas; instalaram-se vários estabelecimentos de ensino, mormente de nível superior, inclusive com faculdades de medicina, odontologia, enfermagem, agronomia; fundaram-se mais clínicas e hospitais; grandes empresas atacadistas e de supermercados surgiram na cidade, atraindo consumidores e varejistas de todos os municípios da região. Eclodiram muitas empresas não pertencentes às famílias tradicionais da cidade. Évora se expandiu em novos e afastados bairros, inclusive com a construção de luxuosos condomínios fechados. Foi nesse embalo que, já formado, Fabrício conseguiu transformar a loja de seu pai numa grande rede estadual de lojas de departamento, o que demonstrou a sua inteligência, liderança e capacidade empresarial.
Em meados da década de 1980, Marcos associou-se a alguns amigos intelectuais e fundou a Academia Eborense de Letras. Na qualidade de seu idealizador, foi aclamado pelos seus confrades como seu primeiro presidente. Na solenidade de sua instalação, realizada no auditório da Câmara Municipal, no prédio onde funcionara o desativado Évora Clube, onde dançara tantas vezes, proferiu notável discurso, no qual denunciou que alguns prédios antigos e históricos da cidade já haviam sido derrubados ou descaracterizados, sobretudo por comerciantes gananciosos, ávidos apenas por lucro e mais lucro. Alertou que as velhas casas (os “planetas”) da Zona Planetária estavam com seu estado de conservação bastante comprometido, podendo ruir num “inverno” mais rigoroso.
Acrescentou que o poder público municipal deveria promover concurso no ramo da historiografia, para que algum pesquisador ou historiador ficasse estimulado a escrever a história de Évora. Falou da degradação ambiental da cidade, sugerindo que um parque florestal fosse criado, sobretudo para preservação das matas ciliares do Paraguaçu. Também apresentou a sugestão para que um parque de preservação ambiental fosse criado na região da Serra do Cachimbo, com a criação e instalação de piscinas, bicas, trilhas, teleférico e outros equipamentos, que, sem dúvida, fomentaria o turismo no município.
Por fim, defendeu a ideia de que o Cemitério da Igualdade, de nome tão justo quanto apropriado, já inativo há mais de duas décadas, fosse transformado num museu e memorial a céu aberto, com a preservação dos túmulos e a criação de alamedas, jardins, caramanchões e um espaço para meditações e palestras temáticas. Seu discurso, com as suas denúncias e sugestões, foi acolhido com longa e intensa salva de palma. O jornal A Batalha o publicou na íntegra e a rádio Princesa do Paraguaçu o divulgou em vários horários. Posteriormente, foi publicado em forma de folheto.
Após o seu discurso, houve um lauto coquetel. Quando Marcos se postou, sozinho, a uma das janelas ogivais, perto das quais dançara tantas vezes, quando o auditório era a pista de dança do saudoso Évora Clube, veio cumprimentá-lo uma moça loura, um tanto gorda, de olhos azuis, meio enevoados pelo que poderia ser o prenúncio de alguma doença ocular; apresentava sinais de espinhas, sardas e varíola no rosto. Elogiou-lhe o discurso e tentou entabular uma conversa. Olhava-o como se tentasse seduzi-lo. Não tendo gostado da conversa e não se sentindo nem um pouco atraído pela mulher, Marcos, conquanto a tenha tratado com cortesia, inventou uma desculpa qualquer e se dirigiu para a mesa onde estavam Fabrício e outros amigos.
Soube, então, que aquela mulher era uma neta de James Cavalcante Taylor, já falecido há alguns anos, despojado da fortuna que tivera outrora. Viera passar alguns dias em Évora, após longos anos de ausência, em visita a familiares. Marcos, consternado, teve a certeza de que por trás daquela ruína precoce se escondia a inefável e precária beleza daquela menina linda, mas tola e presunçosa, que tanto o encantara no início de sua adolescência, e que tanto o magoara com o seu estúpido desdém.
Tomou um longo gole de cerveja, porém a bebida lhe pareceu mais azeda que de costume, como se fora um cálice de amargura e de fel. Não teve nenhuma sensação de vitória, revanche ou vingança. Ao contrário, como lamentou esse reencontro e a beleza esvaída nas formas transitórias, imperfeitas.
Com o coração confrangido, lembrou-se destes versos de um jovem poeta amigo seu:
recordas a menina que te golpeou
com um não, apenas por capricho e maldade.
(...)
lamentas a namoradinha jovem e esbelta
que envelheceu e engordou.
debalde procuras a sua cintura
para ternamente lhe pousares as mãos.
antes não mais a tivesses revisto.  

sábado, 31 de dezembro de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Fonte: Google. Foto meramente ilustrativa

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

 
Capítulo XXXV

Uma história da cera de carnaúba
 
Elmar Carvalho

Vamos dar um salto na história de Marcos Azevedo. O rapaz, após concluir o antigo científico, fez o curso de Direito em sua cidade natal, também como aluno do Liceu Eborense. Na época, o campus da Universidade Federal na cidade ministrava apenas os cursos de Ciências Jurídicas e Sociais (Direito), Administração de Empresas, Economia, Contabilidade, História e Letras.
Dois anos após a conclusão de seu curso superior, foi aprovado, em concurso público, para o cargo de Fiscal de Tributos Federais. Conseguiu ser lotado na Agência da Receita Federal de Évora, em cujo prédio funcionava a Alfândega local. Nela se tornou colega e amigo de José Parentes de Sampaio, de conversa agradável, com sua voz grave, sonora e erudição de almanaque, do jornalista Epaminondas Lemos, sempre elegante, sem nunca descurar de vistosa e cara gravata, e do professor Barreto, conhecido na intimidade como Barretão de guerra.
Eles eram bem mais velhos que Marcos, mas como este tinha boa cultura, mormente literária, e colaborava na imprensa local, logo fizeram amizade com o novel colega. Em muitas sextas-feiras, após o término do expediente da tarde, saíam para tomar algumas cervejas no barzinho do Pimpão ou no Recanto da Saudade, do comandante Augusto, ambos localizados na Munguba, à beira-rio. Às vezes integrava a turma Francisco Eduardo Aires, que embora fosse mais reservado também tinha boa conversa.
Numa dessas libações, Marcos leu um poema que fizera naquele dia, que, entre outros versos de molde existencialista, dizia: “Quisera ter a humildade de um leproso.” Ao ouvi-lo, Barretão, que muitas vezes era bizarro e teatral, caiu por terra; prostrado, em posição que imitava os irmãos maometanos, exclamou com muita ênfase, com seu vozeirão estentórico, como era do seu feitio:
– Grande, caramba! Grande humildade, grande poema! – E beijou o chão, sem nenhuma vergonha ou nojo. Sem dúvida, hiperbólico como sempre e como nunca, Barreto exagerava; o poema não era tão bom assim.
Foi através desses amigos que Marcos obteve detalhes sobre um caso empresarial rumoroso, de que ouvira falar em sua meninice, mas ao qual não dera maior importância na época, como era natural. Pretendia, agora, narrá-lo num de seus projetados livros. José Parentes, vendo o grande interesse que o caso despertou em Marcos, deu ao rapaz uma fotocópia de todo o processo administrativo, que já dormia nos arquivos da Delegacia da Receita Federal há vários anos. Foi a verdadeira batalha empresarial que se travou entre James Cavalcante Taylor e Carlos Teles Bacelar. O primeiro, além da Casa Britânica, com várias filiais no estado, comandava a Indústria Vegecera S/A, e o segundo, a Teles Bacelar Indústria e Comércio.
A rivalidade empresarial que existia entre ambos também os tornou adversários na vida particular e social. Isso se refletiu até mesmo no futebol. James fundou o Industrial Atlético Clube, de cores azul e branca, e Carlos, o Évora Futebol Clube, de farda alvirrubra. Ambas as agremiações tinham seu próprio estádio. James não era atleta, mas apenas incentivador do esporte, ao passo que Carlos Teles Bacelar, além de ser considerado o introdutor do esporte bretão em Évora e de haver trazido a primeira bola a solo eborense, era um grande atacante, e muitas vezes era o artilheiro em disputas locais e estaduais.
Quando a importância da comercialização da cera de carnaúba começou a declinar, em face da Segunda Guerra Mundial e depois em virtude da descoberta de substitutivos desse produto, Carlos começou a diversificar sua indústria, com a fabricação de novos produtos, usando outras matérias primas da região, como o jaborandi e o babaçu, além de ter criado um grande sistema de vendas por atacado, com capilaridade em toda a região.
Além disso, de forma surpreendente, começou a comprar borra de cera de carnaúba, numa época em que tanto a cera parda como a cera flor estavam com seus preços em baixa. As hipóteses sobre essa iniciativa eram as mais diversas possíveis, e não faltou quem achasse que o grande empresário estaria dando um tiro no pé, ou até mesmo na cabeça. Alguns acharam que ele perdera o juízo, ou pelo menos o tino comercial.
Depois de alguns meses, o verdadeiro objetivo de Teles Bacelar foi descoberto. Ele, o irmão Adalberto, que era engenheiro mecânico, e o primo Mauro, formado em Química, em cujo curso tirara as mais altas notas, sendo mesmo considerado um legítimo alquimista da contemporaneidade, descobriram um processo para aproveitar a borra da industrialização da cera de carnaúba, clarificando-a, e dando-lhe quase a mesma qualidade, textura e coloração da cera flor, cujo preço sempre fora mais alto. Aliás, Mauro Machado Bacelar, em fase experimental, inventou um sistema mecânico e químico para transformar a palha da carnaúba, após a retirada do pó, em celulose, num grau de aproveitamento jamais alcançado. Infelizmente, os concorrentes e os adversários políticos dos Teles Bacelar impediram que o governo federal financiasse esse projeto, de forma que ele nunca pôde ser implementado.
Deram-lhe a classificação de cera parda/flor, e entraram com requerimento para exportar várias toneladas desse produto para países da Europa. Logo, através de amigos, James Taylor soube desse processo administrativo e denunciou ao chefe da alfândega local que essa tal cera era uma fraude industrial, e que isso terminava sendo uma verdadeira concorrência desleal e predatória para com as outras indústrias ceríferas. Todavia, diante de laudos laboratoriais, e ante a documentação de que empresários europeus assumiam o compromisso de comprar o produto, sem nenhuma restrição e por um preço superior à da cera parda, o titular da alfândega deferiu o pedido, em despacho muito bem fundamentado.
Contudo, Taylor apelou para congressistas amigos, um deles parente de sua mulher, que se reportaram ao ministro da Fazenda. Quando várias alvarengas e barcaças, carregadas com várias toneladas da dita cera parda/flor já se preparavam para descer o Paraguaçu em demanda do porto marítimo, que ficava a cerca de 30 quilômetros, perto da praia de Amarração, chegou um telegrama do ministro determinando a suspensão do deferimento alfandegário, até ulterior deliberação.
Depois de longa demanda, tanto no âmbito do Poder Judiciário, como no do Ministério da Fazenda, com interferência de políticos de ambos os lados empresariais, Teles Bacelar pôde remeter o seu produto para países da Europa, bem como para algumas indústrias brasileiras. Novos pedidos foram feitos, o que demonstrou a boa qualidade da cera. A Teles Bacelar recebeu muitos elogios pela qualidade de seu produto e pelo maior aproveitamento da matéria-prima. Tudo isso foi intensamente repercutido nos jornais da época, como uma grande conquista e inventividade da indústria eborense.
James Taylor terminou desistindo da fabricação de cera de carnaúba, enquanto a Teles Bacelar Indústria e Comércio ainda resistiu bravamente por algumas décadas, até a sua derrocada final, por motivos diversos, que não vêm ao caso.