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segunda-feira, 3 de junho de 2019

AS ROSAS DA PRINCESA ISABEL


Por Pádua Marques (*)

A princesa Isabel tinha em casa um escravo de sua confiança chamado Sebastião. Tião, pra ser mais íntimo da casa da futura imperatriz do Brasil, não fosse o marechal Deodoro e os seus pariceiros Benjamin Constant e Floriano Peixoto. Era de um tudo. Levava recados pra dona Tereza Cristina, lavava os penicos que o conde D’Eu usava de noite, colocava sela nos cavalos pra os filhos da princesa passearem dentro de São Cristóvão e aguava as roseiras do pé da janela.
Dona Tereza Cristina não tolerava o diabo do negro. E vai lá que tinha suas razões. Aliás, nunca gostou dessa coisa de negro dentro de casa, dando palpite no de comer, no de beber, no de vestir, ouvindo conversa atrás de porta, roubando um naco de queijo dos netos ou uma galinha gorda que o Duque de Caxias ou o marquês do Paranaguá, aquele ministro de seu marido, lá do Piauhy de vez em quando mandava pra o imperador comer ao molho pardo e depois fazer uma canja.
Dom Pedro sempre foi muito tolerante, ela não. Onde já se viu aquele palácio não ter uma guarda de honra que fizesse boa estampa aos seus patrícios italianos quando visitavam São Cristóvão? Ficava com a porta cheia de negros sem nenhuma compostura. Mas tudo culpa dessa mania do marido passar o dia todo enfurnado em cima de um monte de livros, mapas, no laboratório privado esmiuçando aqui e ali pra ver se descobria alguma coisa com aquela cara de Papai Noel dele.
Mas Tião era um negro preguiçoso e debochado. Abusava da confiança da princesa. O príncipe Gastão de Orleans não gostava de ver nem pintado o negro, quanto menos conversando com sua mulher e de brincadeira com seus filhos. Dona Isabel mandava ele regar as plantas e ele ia era se meter na cozinha atrás de conversa com as criadas. Aquela cozinha de São Cristóvão era um ninho de fuxico! Negro entrando e saindo feito que nem formiga.
Dona Isabel chamou um dia Tião e o encarregou de cuidar de suas roseiras. O serviço era trazer água de uma fonte ali perto e não deixar que elas morressem. As rosas colhidas seriam levadas pra igreja. No começo foi tudo muito bem. Mal dona Isabel levantava e já ouvia o negro assobiando e chegando do rio com a água pra jogar nas plantas. Era um cuidado fora de coisa comum.
Dom Pedro já estava até pensando em dar um aumento no salário de Tião, liberar o FGTS pra ele comprar uma casa no programa Minha Casa, Minha Vida. Dona Teresa Cristina foi que nunca engoliu esse negócio daquele negro viver dentro da casa da filha entrando e saindo da cozinha e passando pela sala na frente das visitas, mascando fumo e se coçando.
Uns meses se passaram e a princesa um dia percebeu que suas rosas estavam de vermelhas ou brancas ficando amarelas! Pensou em chamar seu pai o imperador, homem que vivia dia e noite em pesquisas e mais pesquisas, pra ter alguma explicação sobre aquele fenômeno. Ele chamou os maiores cientistas de França e Inglaterra pra que dissessem o que era aquilo de uma rosa vermelha está assim de repente ficando amarela. Foram mandar gente e ministros até a Holanda. Vieram cientistas da Turquia e da Grécia. Descobriram nada!
Conde D’Eu e dona Teresa Cristina, que nunca gostaram de negros dentro de casa e com intimidades com os seus, passaram a olhar com desconfiança aquela estranheza das rosas ficando de vermelhas ou brancas em amarelas. Disseram a uma só voz o que achavam. Isabel, minha filha, esse Tião, com preguiça de buscar água no rio, estava era mijando nas suas roseiras. Só podia ser isso!
Meteram tanta conversa na cabeça de dona Isabel, que ela resolveu tirar a limpo aquela história. Numa noite disse que iria dormir mais cedo pra acordar no outro dia bem ao raiar do dia, antes que o galo cantasse. De madrugada se acordou, acendeu a vela e ficou escutando movimento que vinha do jardim. Pouco depois ouviu uma tossida longe. Era Tião temperando a goela e dando sinal de presença.
Dona Isabel ficou apurando o ouvido, mas nada ouviu além de uma cantiga de grilo aqui e mais adiante. Imaginou que Tião havia saído pra buscar os animais e as ancoretas com o que traria a água. E demorou e demorou e nada. A vela já havia queimado a metade e o diabo do negro Tião ainda não chegava com a água pra começar o serviço.
De repente ela ouviu um barulho de água caindo. Por onde ele havia chegado que nem fez barulho? Que água mais pouca era aquela? Que marmota seria aquela de Tião ter ido tão ligeiro? Abriu a janela de uma vez e viu o criado ainda abotoando a braguilha. Os olhos mais pareciam umas tochas de fogo, de tão encarnadas que eram. Tião, que é que tu tá fazendo com minhas roseiras? O pé do negro foi um vento. Até hoje.
 Pádua Marques (*) Membro  da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, colaborador do Opiagui

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

ARTIGO DA SEMANA

ANDANDO EM RUA QUE TEM CALANGO


Por Pádua Marques

Pádua Marques - Jornalista e Escritor.
Membro da APAL e de outras insti-
tuições literárias no Piauí.
                       
No meu tempo de infância, quase todo menino tinha uma baladeira no cós do calção. Pra onde se ia ela ia junto. E a gente quando se juntava e saía aos magotes caçando calangos pelos meios de matos era uma aventura e tanto. Era ver de longe um balançando a cabeça em cima de algum muro, monte de barro ou galho de árvore e a pedra comia! Aí vinha na gente aquela satisfação do caçador, a de ter conseguido derrubar a caça, muitas das vezes com pouca mira ou posicionado em lugar ruim.

Conheci excelentes caçadores de calangos. Não vou aqui dar nomes porque é pra algum que ainda esteja vivo acabe me cobrando autoria de façanhas. E a gente sabe que essa gente  gosta muito de se pabular. Mas como disse, voltando à caça de calangos, os meninos daquele tempo, raros, eram bons de pontaria pra derrubar calangos. Calanguinhos, calangos cinza, pretos e até os mais birrudos e temidos, os carambolos, que segundo diziam, eram de correr atrás da gente.
E a baladeira tinha que ser boa. Feita de sola, talo de goiabeira e câmara de pneu de bicicleta. Eram afamadas as baladeiras que eram de câmara de pneu de caminhão ou de trator. E havia até quem tivesse baladeira feita de câmara de pneu de avião, as mais difíceis. Vendo o bicho, era esticar o braço, fechar o olho esquerdo, mirar, soltar a pedra e ver o calango ciscando com as pernas pra cima estrebuchando. Servia pra nada depois.
Naquele tempo não tinha esse negócio de ecologia, IBAMA, ICMBio. Nada disso. E se não tinha isso e mais aquilo, como é que havera de ter advogado, defensor de calango? E a gente, nós meninos pobres, sem muito acesso aos brinquedos mais caros da época éramos mais livres, feito os calangos. E é desde esse tempo que me interessei em estudar esses bichos.
Eu até sou de opinião de que deveria ser criada uma disciplina nos cursos de graduação para só estudar os calangos. Deveria ter uma ciência, uma faculdade particular pra isso. Acho um dos bichos da natureza mais interessantes. As reações de comportamento do calango são iguais aos de muita gente, pobres da periferia em época de campanha política, por exemplo. Alguém metido a cientista já disse, eu já ouvi e não sei se procede, que calango só tem no Piauí.
Outro dia estive vendo uns candidatos visitando bairros e fazendo zuada numa rua. Vinham uns assessores à frente entregando santinhos. Outros mais atrás e pelo meio carregando umas bandeiras com o nome e a cara do candidato. E no meio daquele monte de gente vinham eles, sempre achando graça pra tudo e pra todos. Abraçaram velhinhas e meninos barrigudos. Apertaram as bochechas de outro mais à frente e enquanto iam entregando os ditos santinhos. Até cochichando com velhos desdentados e fedendo a cigarro.
E aquela gente pobre, desempregados, mocinhas piolhentas, homens de calções encardidos jogando sinuca num boteco, mulheres com fraldas no ombro e meninos de olhos remelentos estavam ali abismados, balançando a cabeça que nem os calangos em cima do muro. Uns pedem um trocado pra ainda ir à feira.
Outros, um real pra um trago de pinga. E mais lá na frente outros mais cheios de vergonha até deixam o candidato entrar em casa pra, lá dentro, darem uma ferrada maior. Outros, satisfeitos e iludidos com as promessas e os afagos vão balançando a cabeça e acreditando em tudo que os caçadores de votos lhes dizem. Eu acho que aquela gente tem alguma coisa com os calangos. Coisa de sangue, de família.

sábado, 24 de junho de 2017

ARTIGO DA SEMANA

O Porto das Barcas, esse filho enjeitado da Parnaíba

Por: Pádua
Marques(*)
Estou pra ver história mais comprida e sem fim essa do complexo do Porto das Barcas, aquele amontoado de casas velhas, esfarinhando de podres ali na região do centro dito histórico, entre o bairro do Carmo e a avenida Presidente Getúlio Vargas, tido e havido como o lugar onde estava armada a rede que balançou a menina chamada Parnaíba e que não tem quem não saiba que mais dia menos dia está com os dias contados.Agora o Governo do Estado do Piauí quer retomar pra si a administração do dito complexo depois de anos e mais anos sob a responsabilidade da Associação Comercial e Industrial de Parnaíba. Pelo que se sabe a associação já vinha há vários anos mantendo de forma precária, como diria, capengando mesmo, a administração daquele amontoado de prédios, mas segundo argumenta a diretoria da entidade, sem recursos pra promover uma restauração à altura. Tirando o exagero, sem dinheiro pra comprar uma vassoura.
Pouco ou quase nada foi feito que desse uma feição de coisa importante, segura, digna e que imprimisse aos olhos de turistas, autoridades e aos pouquíssimos comerciantes ali estabelecidos noção de coisa que preste pra ser chamado um, respeitadas as proporções, um centro cultural e de eventos. Realmente a cada dia que passa a situação no Porto das Barcas fica pior. Nesses anos todos o que houve e muito foi remendo novo em fundo de calça velha. E remendo novo em fundo de calça velha sempre corre o risco de se deixar um dia a bunda de fora.Aquele, como diriam de boca cheia de farinha ou de cuscuz alguns parnaibanos mais metidos a importantes, complexo cultural do Porto das Barcas, nunca atendeu, no meu entendimento, às exigências de conforto, segurança e até mesmo estética a eventos de médio ou grande porte. E agora me vem a informação de que depois de ser em 2013 entregue à responsabilidade da ACIP por documento do então governador Wilson Martins, o governo de Wellington Dias quer retomar pra si a administração de toda a área. Que mal comparando é a nossa Pompeia e em alguns lugares parece mais o Coliseu.
Essa história de vai pra lá e vem pra cá me lembra aquela história de filho enjeitado. Aquele menino maluvido, duro de rédeas, rebelde até pra tomar um banho e que um dia vai pra casa da avó e semanas depois volta pra casa da mãe. Aquele menino que é criado na ponta do pé e do relho entre os outros irmãos. O chamado filho de criação. Passa um dia cá e dez lá. E quando volta de lá pra cá, volta pior do que estava cá. Lembra o personagem Banana, de meu livro A Rua das Flores, o primeiro a ser publicado graças à benevolência de alguns amigos. Banana, o apelido de José Domingos, irmão de Antonio Francisco, este criado pelo quitandeiro Quintanilha, depois de todas as tentativas pra ser colocado nos
trilhos da vida pelo irmão Tonico, que até o colocou numa escola, acabou se
perdendo com as más companhias ali pelas bandas do bairro São José e entre os motoristas e engraxates da praça da Graça. Estava livre pra se perder no mundo. 
 Assim é o Porto das Barcas. Já aconteceu de um tudo naquela margem de rio e
entre aqueles escombros. Nem é bom de recordar, pois é coisa de dar até
arrepios. Deve ser praga de Mundoca, a personagem resmungona de Beira Rio Beira Vida.

Sinceramente a gente espera, mais uma vez, que tomando pra si uma responsabilidade que é sua, o Governo do Estado agora coloque gente responsável, aplique recursos e dê destinação através de um amplo e viável projeto de restauração praquele monte de prédios que estão a cada dia se deteriorando. Faz vergonha aquilo ali. Mete medo passar numa calçada daquelas. E se o governador Wellington Dias deseja mesmo dar sentido a seu projeto de governo em relação à Parnaíba, que entregue este projeto e a administração pra alguém compromissado com coisa bem feita. Porque se é somente pra fazer fita e se aproveitando de um momento lembre ele que Parnaíba e mais precisamente aquele complexo do Porto das Barcas faz tempo que anda coçando as costas e o pé da barriga. Porque se é pra retomar da Associação Comercial e Industrial de Parnaíba e depois colocar uma pedra em cima, melhor deixar do jeito que está caindo aos pedaços. Porque esse negócio de mandar menino passar dez dias na casa da vovó e um dia depois ele vem pra casa da mãe pior do que foi, melhor entregar pra, como se dizia antigamente, no tempo em que não havia esse negócio de Estatuto da Criança e do Adolescente, entregar para o juiz.
(*)Pádua Marques, jornalista e escritor, membro do IHGGP e da Academia Parnaibana de Letras. (Este artigo foi escrito e publicado em 30 de outubro
de 2015.)

domingo, 9 de abril de 2017

ARTIGO DA SEMANA

 Última parada, terminal da paciência, no centro de Parnaíba. 
PÁDUA MARQUES (Jornalista e Escritor)


Se fosse uma pessoa, essa questão do transporte público em Parnaíba já estaria em condições de prestar o exame do Enem e dentro de mais alguns anos estaria concluindo um desses cursos de graduação. Se fosse uma mocinha estaria neste momento dançando num baile de debutantes. Se é que ainda existe essa coisa de mocinhas inocentes sonhando com príncipe encantado. Se fosse um rapazinho, estaria servindo ao Exército. 
Os rapazes de hoje vivem se iludindo com a saúde e o corpo perfeito dentro dessas academias, mas são incapazes de procurar uma coisa pra fazer e ocupar a cabeça com responsabilidade. Preferem a vida de ilusão de que tudo é fácil, o papai e o governo facilitam tudo e ficam brincando o dia inteiro com um celular de tecnologia de ponta, desses ditos de última geração e uma motocicleta pra andar com a bunda em cima. Tendo isso a vida está ganha.
A vida está tão fácil pra essa gente, essa nova geração de Parnaíba, que eu fico aqui comigo pensando como é que aqueles estudantes que estão todos os dias ali na praça de Santo Antonio esperando um transporte pra voltar pra casa não reclamam de nada. Daquela situação humilhante e sem precedentes de ficar debaixo de um pé de pau, na chuva ou no sol a pino. Eu nem falo aqui da população dita comercial e de serviços, aquela que vai ou vem do centro todos os dias.
Faz mais ou menos uns quinze a vinte dias, talvez um mês, eu tive o cuidado de ler, reler, treleler uma matéria em que o superintendente de Transportes e Trânsito de Parnaíba, Maurício Pinheiro Machado Júnior, falava sobre a atuação e atribuição de sua pasta, os desafios que tem pela frente e tudo o mais. Falou sobre recursos, projetos, sinalização horizontal e vertical, acidentes, pessoal da guarda municipal, frota de veículos. Eu corri o olho de ponta a ponta na matéria e não enxerguei nada sobre esta questão do terminal de passageiros. 
Questão que se aproxima do insuportável pra mim e pra muita gente. Meu Alá do céu! Me diga se isso é mentira. Se for verdade me esclareça por favor. Já vamos pra uma pá de tempo que o prefeito da época, Paulo Eudes Carneiro, resolveu por recomendação de seu secretário de obras e outros técnicos, demolir o abrigo e a praça do terminal de passageiros ali na praça Lima Rebelo. Na promessa de em pouco tempo se construir outro mais moderno e seguro.
No lugar mandou fazer e inaugurou debaixo de banda de música uma tal de praça dos Poetas. Como se poeta vivesse pedindo praça pra ser lembrado. Ora e veja meu senhor! Hoje a tal praça está lá. Virou ponto de parada de drogados, marginais, bêbados e toda sorte de gente de rua. Ultimamente abriga um restaurante a céu aberto, desses de churrasquinho, estacionamento de motos, barracas de produtos piratas e de frutas, artesanato e até de venda de redes de dormir. 
O tempo passou e foi passando. Dois políticos estiveram na chefia da prefeitura ali na
rua Itaúna. Um deles, o Zé Hamilton Furtado Castelo Branco, passou oito anos! O seu sucessor, Florentino Neto passou mais quatro anos. Doze anos! Doze anos é muita coisa! Nenhum dos dois resolveu ou tentou resolver esta quase vintenária questão do transporte coletivo e do terminal de passageiros.  
Mão Santa, se não quiser ter dor de cabeça pela frente e sair daqui a quatro anos por cima, entre outras coisas pra fazer tem essa do transporte coletivo e o terminal de passageiros. E é urgente porque eu estou é aperreado. Porque ficar esperando as vans ou os poucos exemplares de ônibus debaixo de um pé de oiti na praça de Santo Antonio  já está no limite da paciência. Aliás, um bom nome pra um terminal de passageiros.  

segunda-feira, 6 de março de 2017

ARTIGO DA SEMANA


O carnaval dos desempregados

PÁDUA MARQUES (Jornalista e Escritor)
 
Estamos cansados de saber que no Brasil poucas são as coisas e situações levadas a serio. Um país com treze milhões de desempregados que se dá ao luxo de parar cinco dias por pura brincadeira não pode em nenhuma hipótese ser levado a sério. Um país que tem um dos maiores índices de pobreza e desigualdade social e que se dá ao deboche de investir milhões e milhões de sua moeda numa carnavalada ao que se imagina só deve estar nadando em dinheiro.
Um país que está passando por um dos seus piores momentos de crise institucional com ministros, governadores, prefeitos, secretários, empresários, funcionários públicos graduados e outros mais envolvidos em corrupção e para pra celebrar um carnaval por cinco ou mais dias, não pode ser de maneira nenhuma ser tido como sério. Mas se a gente vai falar isso nas rodas de conversa logo recebe o título de chato, reacionário, sem graça, está revoltado porque seu foi derrotado nas últimas eleições. Somente porque discorda dessa presepada toda.
Adicionar legenda
Temos visto que por esse Brasil existem centenas e centenas de prefeituras que estão neste exato momento ignorando a crise e mergulhando as finanças numa brincadeira sem nenhum sentido de retorno. Porque pra muitos prefeitos o povo gosta mesmo é de festa. Sob o pretexto de serem populares, os executivos municipais se danam a gastar aquilo que não possuem e não tem certeza de que vão arrecadar o suficiente. Onde já se viu muitas e muitas prefeituras sem as mínimas condições que justifiquem criarem pastas sofisticadas tipo secretarias de cultura e mais ainda de turismo?
Não é o caso de Parnaíba, que tem histórico nesse sentido. Sendo mais direto, sempre teve panos pras mangas. Certos municípios criam essas secretarias e as entregam pra pessoas sem o mínimo de conhecimento com o que estão ou vão trabalhar. Secretarias que não trazem em quatro anos de atividades nenhum retorno pra administração municipal porque são ou serão geridas por pessoas ignorantes com essas atividades. Aqui mesmo na região norte do Piauí nós temos uns dez casos.
Mas voltando pra o carnaval, vemos que é muita e muita falta de responsabilidade de prefeitos investirem neste período milhões de reais em festas com bandas caríssimas e até outro dia, logo que tomaram posse em janeiro, era uma choradeira de fazer dó. Até outro dia os auxiliares, secretários disso e daquilo não paravam de reclamar que haviam encontrado suas pastas numa petição de miséria. E assim de uma hora pra outra aparece dinheiro no rodo pra se gastar contratando bandas e mais bandas.
Impossível acreditar que num país com treze milhões de desempregados, hospitais e postos de saúde fechados, estradas esburacadas, iluminação precária, transporte público sucateado, enfim, uma série de dificuldades de deixar qualquer administrador de empresas na iniciativa privada com a mão na cabeça e os prefeitinhos de periferia queimando dinheiro com festas de carnaval. Essa é apenas a primeira e a mais esperada delas. Depois, pelo menos aqui no Nordeste, vem Santo Antonio, São João e São Pedro.
Aqui e acolá um festejo de santo padroeiro. Uma pontinha de recursos da prefeitura pra satisfazer um colega, um time de futebol, uma igreja, campeonato disso e mais daquilo. As câmaras legislativas estão cheias de vícios e de  roubalheiras com vereadores praticamente vitalícios, empregando a mulher, a amante, a filha, o genro, os compadres, os colegas desocupados do filho vagabundo. Aí quando passa o carnaval todo mundo corre pra cima das funções e execuções fingindo que está trabalhando. Desse jeito não tem jeito.
(*)Pádua Marques é jornalista e escritor

quarta-feira, 1 de março de 2017

ARTIGO DA SEMANA


Do Brasil, voltei foi doente.

PÁDUA MARQUES (Jornalista e Escritor)
                   Não queira saber o que é passar um dia, horas mesmo, num desses postos de saúde de bairros bem afastados pra se saber como sofre o coitado de um pobre. Fui um dia desses assim tomando chegada somente pra ver o que se passa com aquela gente, os tipos de doenças mais comuns e o atendimento que é dispensado. Não que eu estivesse precisando, graças a Deus. Mas fui pra ver e sentir de perto como é o padecimento de quem procura algum conforto pra sua saúde.

                   Horrível aquilo. Coisa de, sem querer ser pedante e mal agradecido, arrenegar da hora que nasci. Aqui do meu lado, uma mulherzinha com uma criança de colo dizia pra quem quisesse ouvir que havia chegado de madrugada com o filho ardendo de febre. Mais aqui do outro lado outra senhora, mais puxada na idade, resmungava pra outra mais nova sobre uma dor no peito. Á minha frente um velho, barba por fazer e com a calça muito suja, fedendo a cigarro, queria porque queria ser atendido na frente.
                   Outro sujeito, cara de quem havia voltado da farra do domingo pra segunda, bafo de pinga, acompanhava a mulher e uma filha, menina de seus cinco anos, ainda sonolenta e choramingando. Ele dizia que estava desempregado e estavam passando necessidades vivendo com o pouco ganho do Bolsa Família. E pelo adiantado da hora a fila foi aumentando e mais gente espalhada por aquele cubículo e lá fora por debaixo de uns pés de paus. Se alguém soltasse um peido que fosse ali dentro seria um Deus nos acuda! Coisa de morrer uns cinquenta e outros trinta ficarem feridos debaixo dos escombros. O quadro geral era de penúria e que eu espero que agora mude.
                   E eu ali acompanhando toda aquela arrumação, aquela presepada, me pus a imaginar depois como anda o Brasil. O Brasil está doente e a coisa é grave. Pra morrer falta pouco. Vi e ouvi todo tipo e toda sorte de reclamações e sofrimentos. Em fila pra qualquer coisa couro de político sofre. Desemprego, atendimento à saúde, intolerância, violência, falta de compromisso com a população, falta de vergonha dos políticos, quando deixam a situação chegar a esse ponto.
         Chegar o Brasil ao ponto de, um grupo de mulheres no Espírito Santo baterem o pé e não deixarem policiais militares, seus maridos, saírem pra o trabalho. Por quê? Salários atrasados, condições de trabalho e insegurança. Antes a situação ficou da cor de café no Rio Grande do Sul e depois chegou ao Rio de Janeiro. Um ex-governador preso e levado pra penitenciária, feito ladrãozinho de celular.
                   Governadores com as mãos na careca em tempo de correrem doidos e sem saber o que fazer pra levar de volta pra casa aquelas desordeiras! Eu fico com medo de toda essa avalanche de revolta vir lá de cima pra cá embaixo e acabar derrubando um monte de casas ali pros lados do São Vicente de Paulo, onde mora a população mais pobre e mais sujeita à violência. Desemprego no Brasil nem se fala! Treze milhões de pessoas com a cara pra cima sem saber o que fazer da vida. A gente vai dar uma volta na praça da Graça, é uns olhando pra cara uns dos outros e outros se danando a entregar papel pra gente o dia todo!
                   Mas toda a culpa desse ônibus pegando fogo é a baixa política. Governadores, prefeitos, presidentes de assembleias legislativas, ministros, juízes, secretários, empresários roubando e deixando roubar, corrompendo e sendo corrompidos. Gente com os pés dentro da sala do presidente Temer, sendo citada em atos de corrupção! Ele próprio, assim como tentou fazer sua antecessora, fazendo de um tudo pra defender um aliado e agora ministro?
                   “Acidentes” em que morrem autoridades que detinham informações e decisões importantes sobre uma operação da Polícia Federal?! Aquela minha visita a um posto de saúde de periferia serviu pra ver como o Brasil está por uma peinha de nada. Seguro por apenas alguns fiapos. Onde se viu uma coisa dessas?! Eu ir a um posto de saúde somente pra ver como funcionava e de tanta coisa feia que vi e ouvi acabei foi voltando doente.

 


domingo, 22 de janeiro de 2017

ARTIGO DA SEMANA


O perigo das minas terrestres.
PÁDUA MARQUES (Jornalista e Escritor)

 

            Entre as paixões que eu tenho, uma delas é assistir filmes. Mas não é qualquer filme não! Tenho a perder de conta entre as dezenas de filmes, entre brasileiros, americanos e de outras nacionalidades sobre as guerras, tanto as antigas quanto as da atualidade. Estes filmes que tenho e que guardo com o carinho de mãe de primeira viagem, sempre que posso os coloco no equipamento e ao assistir analiso com olhos de ciência esta arte humana, tão nociva e tão pouco estudada.

            Sobre a Segunda Guerra, tão exaustivamente mostrada nas telas, tenho praticamente os clássicos. Sobre as guerras e guerrilhas modernas, no Oriente Médio, África, Ásia e na América Central e América do Sul, sempre me chamou a atenção pelo seu efeito traiçoeiro e fatal o emprego da mina terrestre. Funciona mais ou menos assim: os soldados colocam enterradas as ditas cujas e quando alguém vai passando, pisa nela e aí voa caco de gente pra tudo quanto é lado.

            Mina terrestre quando não mata, aleija. É muito sofrimento que pode ser verificado nesses clássicos como Os Gritos no Silêncio, A Ponte do Rio Kwai, História de Um Massacre, Dias de Glória, A Volta dos Bravos, Cem Dias na Floresta, os recentes O Dia do Perdão, Leningrado, Iluminados pelo Fogo, Katin e Julgamentos de Guerra. As minas terrestres são ao lado do envenenamento de águas, bombardeios de hospitais e escolas, as armas mais covardes de uma guerra.

            Mina terrestre não escolhe cara nem nacionalidade. Se o cara é preto, branco, amarelo, índio, tem doutorado ou mestrado na Uespi, se é analfabeto de pai e mãe, se votou no Trump ou no Mão Santa, no Firmino Filho, diabo a quatro. Pra mina terrestre não tem esse negócio de escolher quem tem dinheiro em casa ou conta na Caixa Econômica, estudou no Colégio das Irmãs, Polivalente, Caixeiral, Dom Barreto. Se o sujeito compra fiado no Credishop do Paraíba, no Carvalho, Parnaíba Shopping. Não tem escolha. Coisa de triscar numa delas e ficar sem o pé ou a perna, no mínimo.
            E falando em guerra e minas terrestres, os prefeitos empossados agora em janeiro deveriam estar era se pelando de medo. Podem ao saírem à rua e num descuido de nada, adeus mundo velho de gente ordinária! Armas que foram enterradas, pelo visto de propósito, pra acabar com a festa de muita gente. Essas minas terrestres estão em manobras de licitações, obras inacabadas, falta de merenda escolar, mau atendimento em postos de saúde, calçamento mal feito, redes de abastecimento, lixo, programas mirabolantes. São umas verdadeiras armadilhas que os prefeitos perdedores deixaram no caminho dos vencedores. Verdadeiras cascas de bananas numa calçada molhada.
            Aqui em Parnaíba e pelas redondezas onde prefeitos foram ou tiveram seus candidatos derrotados ainda vão explodir muitas minas terrestres. Certamente que as equipes de varredura vão levar uns seis meses ou mais pra descobrir estas armas. Elas devem estar escondidas em tudo quanto é canto da administração. Dentro de  computadores, vasos sanitários, máquina de fazer café, torneiras de jardim, perto de estátuas, poltronas de gabinetes. Muitas dessas minas terrestres nunca, mas nunca mesmo serão encontradas. Mão Santa e seus colegas que abram o olho por onde estão pisando!

 


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

ARTIGO DA SEMANA

SUBINDO PELOS PUNHOS DA REDE

PÁDUA MARQUES  (Jornalista e Escritor)
 
 
            Novamente minha mãe inspira com seus, como se dizia antigamente, ditados, ou como queiram os mais letrados, filosofias domésticas, esta crônica semanal, que andava meio adormecida desde quando se aproximou a passagem do Natal e do Ano Novo. Porque depois das eleições de outubro nada de mais interessante havia acontecido por estes lados do mundo, salvo alguma gente contrariada pelo resultado das eleições e que se pôs a xingar Deus e o mundo.
            O povo, depois do resultado das urnas que, tanto nos Estados Unidos quanto na Parnaíba tornaram vencedores Donald Trump e Mão Santa, estava feito caboclo do interior quando vem à cidade pela primeira vez, todo aletrado. Olhando pras vitrines das lojas e se admirando da sua própria feiura. E se põe a se olhar com mais insistência procurando encontrar no brilho das lojas algum traje que se assente pra que depois ao chegar à sua aldeia, diga aos seus parentes, aderentes e agregados o quanto é interessante e ao mesmo tempo insignificante. Porque povo é bicho que não vale um tostão.
            Mas tão logo chegou o Ano Novo e foram empossados prefeitos e vereadores, aqui no Piauí pouco ou nada havia acontecido. Assim coisa de monta que pudesse levantar poeira e causar alvoroço. Coisa assim de fazer fila pra tomar assento no Bar Carnaúba, no Farias, no Bar Acapulco e em toda a esplanada da praça da Graça. Mas mal as galinhas haviam se recolhido aos poleiros e os passarinhos do mato procurassem as copas das árvores, eis que lá pras bandas do Maranhão aconteceu um tremor de terra e que acabou acabando aqui na Teresina.
            Ah, meu irmão! Pra quê! Tem gente até hoje, passados mais de dois dias que emenda este ocorrido à política e até aos castigos de Deus pelos que votaram no Firmino Filho em Teresina e aqui na Parnaíba em Mão Santa. Tem gente dizendo que este tremor de terra é um aviso de que nosso fim está próximo, que a Parnaíba vá se preparando porque está arriscado até ter tsunami na lagoa do Bebedouro. Tem gente que, desde o ocorrido, já nem dorme mais dentro de casa e muito menos em rede!
            Tem gente associando este maldito tremor de terra à Operação Lava Jato, que pelo tempo que tem levado mais parece lavagem de pratos. Aquela coisa lenta e enfadonha que parece nunca ter fim depois do almoço. Tem gente associando este tremor de terra em Belágua ser um aviso pelo fato de, tanto o Maranhão quanto o Piauí serem governados por homens de ideologia comunista. Porque pra muita gente comunismo é coisa do cão!
            Agora se é que estava faltando alguma coisa que antes não se tinha, agora acaba de se ter, principalmente na política. Tem safadeza, roubalheira, corrupção, cara de pau, enganação, falta de respeito, calote, prevaricação, imoralidade, enfim toda sorte do que não presta. Agora tem tremor de terra. Falta agora tempestade de areia nos olhos. Os meninos mais antigos, os do meu tempo, hão de se lembrar daquela tática de guerra quando se achava que a briga estava perdida pra nosso lado: encher a mão de terra, sapecar nos olhos do inimigo e sair correndo. Foi o que muita gente fez depois de outubro.
  

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016


POLÍTICOS DO BRASIL VIRAM CANGACEIROS.

Pádua Marques (jornalista e escritor) 
            Há setenta e oitos anos, no dia 28 de julho de 1938 quando o bando de Lampião foi finalmente encurralado e dizimado numa emboscada da volante comandada pelo tenente João Bezerra no Poço Redondo em Angicos, nas Alagoas, estava morta e encerrada uma época das mais desgraçadas para os estados nordestinos, à exceção do Piauí e do Maranhão, onde conta a historia, o mais famoso cangaceiro numa chegou a imaginar colocar os pés. 
            Talvez pela pobreza dos dois, Piauí e Maranhão, Virgulino Ferreira da Silva e seu bando não tenham subido no rumo de cá. Sorte nossa. No Piauí, se falava à época, só existiam pedras, calangos e muita gente feia. E no Maranhão, gente que mal tinha para comer uma mucheia de farinha. Logo ele imaginou que seria gastar o solado das alpercatas e a beleza de Maria Bonita com pouca coisa. O cangaceiro pernambucano gostava mesmo era de dinheiro e na terra de Alberto Silva e de Sarney era coisa na mão de poucos. Como ainda é até hoje.
            Conta a história que quando foi morto pela volante de João Bezerra naquela madrugada de julho dentro de umas locas de pedras feito bicho bruto, Lampião carregava uma verdadeira fortuna, fruto de saques, roubos e extorsões em quase vinte anos de carreira política: joias, cinco quilos de ouro e mil contos de réis, quantia suficiente pra comprar 120 carros de último tipo ou umas duas casas de veraneio na Barra Grande ou uns cinco pontos comerciais na movimentada avenida São Sebastião, em Parnaíba. 
            Mas voltando pra atualidade, ocorre lembrar aqui com certa decepção e raiva dessa novela sem fim da Operação Lava Jato. Agora um enrolado achou de abrir a boca e dar nome aos bois, que o Jornal Hoje, horário de uma da tarde, sexta-feira, dia 09, foi inteirinho só dando os nome e sobrenomes. E entre políticos velhos e conhecidos, aqueles que receberam uma pontinha no bolo estão alguns piauienses. Muitos desses que andam toda semana aqui na Parnaíba e pela beira da praia dando tapinhas em ombro de caboclo.
            Mas surpreendeu mesmo e foi motivo de muita gargalhada quando divulgada a relação de nomes, as referidas quantias e as datas, foram os apelidos de cada um desses políticos, deputados federais, senadores, governadores, enfim, toda sorte e marca de gente graduada no pé do batente do presidente Michel Temer. Imagine o camarada ser conhecido por Decrépito, Cerrado ou Boca Mole, Índio, Santo, Diplomata, Todo Feio? 
            Então a gente fica aqui pensando as parecenças e diferenças de Lampião e seu bando naquele julho de 1938 com os políticos de hoje. Roubando do povo, enricando a olhos vistos, escondendo fortunas dentro de toda sorte de buracos, escondidos com medo de cadeia e da execração pública. Uns entregando os outros agora numa tal delação premiada e ainda por cima tidos e conhecidos pelos apelidos mais ridículos. O mundo apenas se repete de vez em quando. 
 


domingo, 27 de novembro de 2016

ARTIGO ESPECIAL


O libertador de Cuba da Parnaíba.


PÁDUA MARQUES (Jornalista e Escritor)
            Agora morreu mesmo. Não, ninguém tem mais um pingo de dúvidas de que Fidel Castro finalmente bateu as botas e vai virar cinzas. Precisou mais de sessenta anos pra que o maior ditador de todas as Américas saísse de cena pra gente ver a quantas anda a política e a geografia da linha do Equador pra baixo. E sobre a morte do cubano que foi um símbolo da resistência e insistência do comunismo por estas bandas me lembro de um livro escrito por mim há dezesseis anos e prefaciado pelo meu grande amigo Daniel C. B. Ciarlini, intitulado O Libertador de Cuba.

            Este livro, que nunca chegou a ser publicado por falta de dinheiro, trata das aventuras de quatro amigos, estudantes dos tempos do Colégio Estadual Lima Rebelo, ali na avenida Coronel Lucas, que dados a entender de política, meteram na cabeça de criar um movimento pra libertar Cuba das garras de Fidel Castro saindo justamente da Parnaíba. Justamente arregimentando no meio dos estudantes, sindicatos, raparigas, igrejas evangélicas, donos de quitandas e de lojas de vender sofá e geladeiras, tipo assim, Armazém Paraíba e Macavi, recursos pra chegar até as portas de Havana.

            Eu não preciso dizer que bem que sempre desejei que o livro fosse publicado antes de Fidel morrer. Desde que escrevi este livro sempre foi este o meu medo. Porque de uns tempos pra cá eu já via todo dia o velho ditador engraxando as botas pra descer nas cordas no rumo da Tabajara. Alguns amigos meus chegaram a ler o livro na chamada “boneca”, que é como se chama a prova definitiva de um livro. Mas Fidel se cansou de esperar e acabou saindo definitivamente de cena agora neste finalzinho de novembro. 

            Numa edição da revista Histórica, pra mim um dos maiores momentos do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba desde sua fundação, uma matéria sobre esse livro, O Libertador de Cuba, acabou causando quase um incidente diplomático com o pessoal do antigo jornal Inovação. Só porque acharam que eu havia colocado a culpa neles pela depredação da praça da Graça. O certo é que o tal livro trata de forma bem humorada da tentativa de quatro rapazes em alcançarem um dia a capital Havana e livrarem Cuba da ditadura do comunismo. 

            Se eu morasse noutro lugar de gente que tem afinidade com a cultura, certamente este livro já estaria publicado há muito tempo e agora iria fazer o maior sucesso entre os americanos, cubanos, venezuelanos, corintianos, enfim, tudo que é povo que termina em anos. Mas vou dar uma pista pra quem não leu a “boneca” e pior ainda, corre o risco de nunca ter a chance de ver publicado este livro. Os quatro estudantes do Colégio Estadual Lima Rebelo, cujas reuniões era ali no Campo da Burra, na avenida Coronel Lucas, na verdade queriam era libertar a Parnaíba do tempo do atraso!

            Os tempos são outros ou vão ser outros? Vamos esperar pra ver no que vai dar a partir de janeiro. Até agora estamos vivendo naquela base de, um olho aberto e outro fechado, feito costureira velha enfiando a linha no buraco da agulha. E lembrando uma passagem do livro O Libertador de Cuba, numa conversa entre dois personagens, Domingos Bermudez Garcia e Franzé, numa mesa lá na antiga Munguba, do Augusto, “nós estamos vivendo um momento em que a corda está segura apenas por alguns fiapos”.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ARTIGO DA SEMANA

O Piauí é um castelo no Capão Redondo.
PÁDUA MARQUES (Jornalista e Escritor)
            Quando morei e trabalhei em São Paulo tive muitos amigos e colegas de empresa que moravam naqueles bairros do tipo, barra pesada. Lembro que muitos deles eram obrigados a sair do serviço ainda com o sol se pondo porque se aventurassem chegar em casa já na escuridão da noite e na hora do Jornal Nacional, corriam o risco de não estarem no outro dia contando da história. Tal o grau de violência que imperava naquelas bocadas de São Miguel Paulista, Vila Nilo, Cachoeirinha, Carapicuíba, Cidade Ademar, São Miguel Paulista e o mais perigoso de todos, o Capão Redondo.
            Este Capão Redondo era e é a materialização do inferno dentro da capital paulista quando se fala em violência. Até a policia se cagava de medo de entrar lá. Ali moram trabalhadores que todos os dias tomam bem cedinho o transporte pra mais um dia de trabalho no centro e em outras regiões. Ali estão donas de casa, estudantes, donos de mercearias, supermercados, padarias e açougues. Ali estão oficinas de conserto de automóveis, lojas de tecidos, clubes de dança, academias de ginástica, depósitos de carros velhos. Mas também as bocas de fumo e muita violência.
            Violência que nunca deixou de existir e pelo visto tem crescido mais do que o mosquito da dengue aqui Parnaíba. No Capão Redondo ocorriam e ocorrem crimes de toda ordem. Desde gente que gosta de pegar no alheio a matadores de aluguel, assaltantes de bancos e de postos de gasolina, arrombadores de supermercadinhos, bancas de frutas e de jornais. Gangues com mestrado e doutorado em tomar tênis e aparelhos celulares. 
            Mas toda essa zuada e esse rodeio todo que fiz até agora foi pra me livrar das balas perdidas e chegar ao Piauí, que na semana passada, segundo dados do X Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2014 para 2015 houve uma redução de quase 10% do número de mortes. As autoridades de segurança estufaram o peito e cacarejaram com esse feito afirmando que o Piauí aparece na quarta colocação entre os estados mais seguros do Brasil. Um verdadeiro oásis onde corre muito leite de cabra e mel de abelha, bom pra tomar com cachaça! 
            Fábio Abreu, deputado federal e atual secretário de Segurança, disse na ocasião que os resultados se devem a um planejamento da atual gestão em combater os crimes naquelas regiões com maior incidência. Até aí ele está dentro do razoável. O que não está certo é de se achar que o Piauí, mais precisamente sua capital Teresina, fica imune a toda sorte de influências de crimes tendo como vizinhas regiões com histórico de violência como Timon, no outro lado do Maranhão, por exemplo. 
            O que não está certo é se imaginar que certos tipos de crimes são previsíveis. Muitas vezes ocorrem com pessoas em estado de descontrole emocional instantâneo. Quando a policia chega já tem ocorrido. Aqui na Parnaíba já temos regiões altamente perigosas para a segurança da população. Bairros como João XXIII, São Vicente de Paulo, Itapecerica, Mendonça Clark. Esse Mendonça Clark tem é uma fortaleza do crime organizado e de tudo que não presta chamada de Carandiru. Por aí a gente tira! Pelo que dá pra perceber e as autoridades de segurança não imaginam é que não adianta achar que nós no Piauí estamos seguros. Mas até onde vai essa segurança e essa paz social se estamos cercados de regiões violentas? Os bichos estão comendo a gente é vivo, seu moço! Não adianta estar dentro de uma casa com todos os serviços e equipamentos de segurança e ter como vizinhos bandidos de toda variedade. Grande coisa!