sexta-feira, 3 de abril de 2026

SHORT STORIES

        

ROUBANDO O JUDAS NA CASA DOS CARCAMANOS



                Anos 1960. Semana Santa em Tutóia, cidade do litoral maranhense. Nessa época, os chamados "dias grandes" eram guardados com todo respeito. Era pecado tomar banho na Sexta-Feira da Paixão ou receber dinheiro pela comercialização de algum produto. 

        Diziam que o Expedito Gonçalves, um cabo da Marinha que serviu na Capitania dos Portos em Tutóia, ficara com o corpo cheio de cabelos porque tinha tomado banho numa Sexta-Feira Santa. Na nossa infância, conhecemos o Mola Deu, um mendigo que sentia dificuldade em pronunciar as palavras e a expressão "uma esmola, pelo amor de Deus",  ele dizia "mola deu, mola deu". Aí a origem do apelido. Mas, tudo não passava de mito.

           A fartura imperava! A troca de bolos, de jejuns, muitas vezes chamadas de "esmolas", entre pessoas amigas, era uma tradição. Dona Zila Galas, minha mãe, fazia bolos como ninguém! Seus bolos eram bastante apreciados e, por isso, nessa época, muita gente levava jejuns para nossa casa com o objetivo de receberem, em troca, os saborosos bolos que ela fazia. Deu que, certa vez, durante esse período de Semana Santa, bateram palmas no portão e eu fui atender. Eu deveria ter entre oito ou nove  anos de idade. Encontrei duas crianças mais velhas que eu, segurando uma bandeja de alumínio contendo cinco espigas de milho (descascadas) e um mói (*) de feijão verde. Ao me verem, disseram:  Viemos aqui deixar essa esmola que a mamãe mandou. Eu prontamente respondi:  Aqui ninguém precisa de esmola não, nós somos ricos! 

            Quanta ingenuidade! Quanta inocência na cabeça de uma criança!

           As crianças, meio encabuladas, já iam dando meia-volta quando Dona Zila apareceu e contornou a situação. Mas de uma coisa eu tinha certeza: podia preparar as costas para as chibatadas no Sábado. Iria romper a aleluia para aprender a ter humildade diante das pessoas. Mas a expectativa de toda a criançada e também de muitos adultos era o Domingo da Ressurreição, com a malhação e queima do Judas.

        O Judas era confeccionado na sexta-feira ou no sábado e escondido em algum lugar para que não fosse roubado, e até porque tinha o desafio da procura no dia seguinte, com mérito para quem o encontrasse. Nesse dia, os irmãos Reubem e Tufy, filhos do Nagib, com a ajuda do primo Maurício (o conhecido Braço de Radiola), filho do Fuad, confeccionaram o Judas e resolveram escondê-lo na alcova do casal Marta e Felipe Zeidan, que o povo chamava de Carcamanos.

        A família Zeidan veio da Síria, um dos dezenove países que hoje formam o Mundo Árabe. Trabalhadores, prosperaram em Tutóia, construíram uma grande prole e, pelos seus méritos, fazem parte da história daquele município. Eram conhecidos como Carcamanos, todavia, é errado dizer que os árabes, sejam sírios, libaneses ou de qualquer outro país desse bloco, sejam carcamanos, tendo em vista que esta expressão é de origem italiana, pois foram os italianos os primeiros imigrantes a chegar em São Paulo.

         Mas voltando ao Judas escondido na casa do casal Marta e Felipe Zeidan, vazou a informação e alguém da minha turma, não lembro quem, foi roubar o tal Judas, pois na véspera do Sábado de Aleluia, em diversas cidades do interior (especialmente no Nordeste), existe a tradição de "roubar o boneco do Judas" da casa ou local onde ele foi confeccionado. Sorrateiramente, o ladrão entrou no quarto, apoderou-se do dito cujo, colocando-o sobre o ombro e rumou para dar o fora da casa. Na saída, por causa do escuro no local (energia elétrica só até as 22 horas e quando tinha!) e da pressa, o pseudo ladrão tropeçou num pinico esmaltado, provocando um barulho infernal. Apressado em deixar o recinto,  e talvez pelo mais puro azar, esbarrou na rede de Dona Marta, acordando a distinta senhora. Foi quando se ouviu, num português arrastado e bem alto, a seguinte frase:  Acoorrrda Feliiipa q'uistão nos rrruuubaaanndo! Aí não teve jeito: jogou o Judas no chão e pernas pra que te quero...!

Nota do autor(*) 
Mói é uma contração utilizada no nordeste  para "molho", significando uma certa quantidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário