domingo, 31 de maio de 2020

CONFINADOS


Por Altevir Esteves(*)



Vejo ruas, vejo prédios, poucos carros.
Mas não do jeito que eu via há meses.
As obras em construção permanecem paradas.
Sem um operário a martelar,
Apenas o vento a balançar as redes de proteção.
Cá fiquei, adormeci e me juntei
Às paredes, ao piso branco, ao sofá que me espera.
Em vão, porque não penso em quedar.
O céu, que estrondava em prantos de chuvas,
Não mais ribomba em trovões
E as fagulhas de relâmpagos em sol ardente se transformou.
Ando agitado, os caminhos são curtos
E não levam a nenhum lugar.
Do outro lado da parede, o vizinho parece que não mais habita.
Mas não ouso saber.
O elevador, a poucos metros,
Quase não faz ruído, as portas não se abrem, mais se fecham.
Os que ali transitavam também se esconderam.
O alimento não falta, a água na torneira é frequente,
O ar é de bom respirar.
As coisas giram como normal, da porta pra dentro.
As andorinhas voltaram, em bandos maiores,
Traçando voos acrobáticos bem perto, sujando as janelas.
A sirene de uma ambulância adverte o vão vazio à sua frente,
desnecessário.
As mangueiras entreolham-se sob o vento,
Questionam-se para quem gerar frutos.
Matos crescem nas calçadas
porque por ali ninguém não mais anda.
Somente cães vadios, a esmo,
à cata de comida, de restos deixados nas ruas,
e não encontram sobejos humanos.
O mercado, a feira, o posto de gasolina e o barbeiro, como estariam?
Apenas lembranças, cada dia mais vagas.
Era época chuvosa, agora vento frio, amanhã será calor;
E o tempo passa lentamente, a teimar na preguiça,
Enquanto notícias ruins querem estilhaçar ideias.
Se não vejo movimento e sons por perto,
Na internet eles pululam, parece saltar da telinha,
Em contraste confuso, como em sonhos sombrios.
Mas os sonhos são abstratos e por isso devem ser inquebrantáveis.
Longe vejo prédios e já não sei se neles vivem gente,
Ou se vivem, com quem dialogam.
Uma barata perdida caminha no chão, à luz do dia.
Não vai a lugar nenhum, como eu.
E nós dois, tão pertos e tão mudos, precisamos nos ignorar.
Não lhe pisarei. Lhe darei chance de ser,
Como espero que eu, bicho aprisionado,
Receber comida e água
E assim continuar.
Mas só vejo prédios parados, um mundo surreal,
do qual não quero descer.


ALTEVIR  ESTEVES -  Poeta, escritor e maratonista. Membro da Academia Parnaibana e Letras. Cadeira 14 que tem como patrono Mirócles de Campos Veras.

Um comentário:

  1. Muito boa crônica, só esqueceu que existe a tecnologia como luz na escuridão da solidão,à nos conduzir as mais longínquas amizades. E entre abraços, aperto de mãos, lágrimas,entes queridos, está uma tela mágica a nós proporcionar conforto e bálsamo para corpo e alma.

    ResponderExcluir