A FORMAÇÃO DO CIRURGIÃO: UMA ANALOGIA À DIVINA COMÉDIA DE DANTE ALIGHIERI
Raimundo José Cunha Araújo Júnior(*)
| Imagem meramente ilustrativa From: Google Iamges |
A formação de um cirurgião tem evoluído desde os tempos em que a figura que representava esse profissional, era uma pessoa de pouca ou nenhuma formação acadêmica e um forte espírito de atuar sem medo de ouvir gritos, e que com agilidade que permitisse em um menor tempo possível aliviar o sofrimento de um enfermo. Era um tempo de brutalidade. Em que se não a doença, a cirurgia causava muito sofrimento e até mesmo a morte. Todos já vimos pinturas clássicas que representam cenas verdadeiramente “dantescas”. Não havia anestesia e os procedimentos cirúrgicos eram realizados sem qualquer conhecimento de antissepsia. Mas mesmo nesse contexto, homens de extrema coragem e observação, herdeiros de estudos anatômicos antigos, feitos muitas vezes as escondidas por razões diversas, algumas ligadas a dogmas religiosos ou à pura superstição, procedimentos cirúrgicos os mais variados foram desenvolvidos. E a história está cheia de momentos mágicos que elevaram o ofício de “cirurgiões barbeiros” ao topo da ciência médica, permitindo avanços que melhoram a vida dos homens e colocaram os cirurgiões em destaque como nos transplantes de órgãos, na cirurgia vídeo-laparoscópica e ultimamente na cirurgia robótica.
Mas para se chegar a esse ponto, uma estrada tem que ser percorrida por homens e mulheres que escolhem trilhar essa estrada de formação até chegarem à condição de médicos cirurgiões. E foi numa reflexão sobre essa caminhada que pensei no paralelo que se pode fazer com um dos mais brilhantes e completos textos já escritos, “A Divina Comédia de Dante”. Quando Dante Alghieri, escreveu em florentino e não no latim como era o costume da época, ele escreveu sobre uma verdadeira e fascinante caminhada de um homem, Dante ele mesmo, por ciclos que a partir de uma situação inicial, cercado de medo e escuridão, por meio de uma inspiração numa figura amorosa, e guiado por três ciclos, talvez comuns a todos nós, em quaisquer que sejam as nossas trajetórias. Caminhada essa na busca de um objetivo de plenitude. Como talvez todos nós vivemos nessa busca ao longo de nossas vidas.
Assim, O jovem estudante de medicina, cercado de incertezas e rodeados por medos e com uma formação heterogênea se lança na aventura de ser um cirurgião. Nesse momento, irá como Dante se ver em um vale escuro e com feras assustadoras, representadas pela insegurança, falta de conhecimento, confusão de conceitos e objetivos na vida dos dias atuais de tradição do passado acadêmico, do presente midiático e do futuro tecnológico.
Num primeiro momento esse candidato a esculápio, derivação do latim do deus grego Asclépio que era filho de Apolo com a mortal Corônis, cuja a lenda conta que foi criado pelo Centauro Quíron, educando-o na arte das ervas terapêuticas e das cirurgias, tornando-se o deus para os doentes e desesperados. Desse modo, movido por uma paixão pela cirurgia a exemplo da paixão de Dante por Beatriz, e após aprovação num concurso dificílimo, na residência médica em cirurgia, o neófito vai encontrar algumas figuras e situações que poderiam receber uma análise de analogias com o inferno, o purgatório e com o paraíso de Dante.
Como Dante, o candidato a cirurgião vai encontrar preceptores e um chefe de clínica que pode ser comparado a Virgílio, o guia de Dante. Alguém que conhece o caminho, que sabe a rota a ser seguida e que poderá guiá-lo pelo trajeto. Pelos menos por parte dele, para que alcance o verdadeiro “paraíso”. Assim como Dante, que escolheu o poeta Virgílio como guia por ter por ele grande admiração, assim também fará o novo residente com seu guia.
Nessa trajetória, o Inferno pode corresponder ao primeiro ano da residência. De um momento para novo residente se ver diante de pacientes com uma grande variedade de doenças, algumas condições muito complexas, doenças em estado avançado, outras até sem perspectiva de cura. Iniciará a convivência com outros residentes, com profissionais de saúde como outros cirurgiões, enfermeiros, nutricionistas, assistentes sociais, e os internos de medicina, que estão na condição em que ele mesmo se encontrava até a bem pouco tempo. Na Divina Comédia, Dante nos apresenta, na entrada do Inferno o aviso: “Deixai aqui toda a esperança”. Seria esse aviso similar a ideia de que o cirurgião é um ser sem pena e que terá uma vida cheia de lutas intermináveis?
O Inferno de Dante tem nove círculos, o primeiro ano de residência vai ter 12 meses divididos em rodízios por especialidades ou áreas de atuação cirúrgica. Aí o novo residente irá ao limbo, uma espécie de antessala do inferno, com virtude, atravessará um rio inicial como o Aqueronte, encontrando o barqueiro Caronte (barqueiro que leve as almas ao entrarem no inferno), que pode ser um R+. Seguirá por mais 8 círculos encontrando Dante luxúria e gula. Verá figuras comparadas a Cérbero, o cão de três cabeças. Depois verá pessoas avarentas, que carregam sobre si pesos enormes. Verá figuras soberbas que se queimarão em seu sentimento como com a lama ardente Do Pântano do Estige como Dante e Virgílio ao percorrerem o inferno. Verá ambiente de culpas muito fortes assim como punições correspondentes. Nesse momento podem surgir as três Fúrias, e com elas a Medusa, que poderá petrificar o novo residente, petrificando seu sentimento de humanismo e tornando apenas um técnico, algumas vezes um técnico mercenário. Daí irá adentrar num momento como a cidade de Dite, onde haverá túmulos de fogo dos hereges, verá rios de fogo onde assassinos são queimados vivos e ficam sendo atingidos por flechas dos Centauros, e os violentos contra si mesmos se transformarão em árvores. Os esbanjadores acabarão devorados por cadelas ferozes e famintas. Nesse momento, devem ser lembrados do que como vaticinou René Leriche: “todo cirurgião tem seu cemitério particular, onde vai sempre orar pelas almas que perdeu”. Essa reflexão pode fazer toda a diferença na vida pessoal e na conduta profissional do futuro cirurgião. Perto do final do primeiro ano, verá fossos que são ligados por pontes para que sejam transpostos. Verá monstros acorrentados como gente que é torturada por pecados cometidos anteriormente. E Ao final desse ano, assim como no nono círculo do inferno onde não há fogo, mas sim frio. Dante encontra os traidores, representados por vezes pelos momentos que ele mesmo se traiu ao não se aplicar no cuidado dos pacientes. O residente no final desse período sentirá o frio da decisão da escolha, das experiências técnicas e humanas e sentirá o “frio na barriga” do peso de invadir o corpo de alguém. Estará como Dante no centro da Terra e vislumbrará o Cruzeiro do Sul e por esse túnel passará o Purgatório, o segundo ano da residência.
Do segundo para o terceiro ano se iniciará para o residente o Purgatório. Como Dante no Purgatório, estará numa ilha, um ponto entre o Inferno e o tão sonhado Paraíso. E numa jornada de círculos ascendentes, o residente, como em um verdadeiro processo de expiação de seus pecados, ficará como no purgatório de Dante, em que almas assistiam às punições das outras almas que pecaram e foram para o inferno. O R2 assiste ao R1. Aqui já mais experiente o residente de cirurgia poderá ver os sete pecados capitais: orgulho, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. E verá nos outros e em si, numa avaliação presente, ou passada, que poderá refletir no seu futuro no exercício da profissão de cirurgião.
No fim do Purgatório, como Dante se despede de Virgílio por este ser pagão e não poder ir ao Paraíso, assim também o residente se despede de seu mentor, seja o preceptor ou o chefe do serviço de cirurgia. Esse mentor muitas vezes, como o residente que passou pelos vários círculos do Inferno e do Purgatório, também passou pelos círculos de sua formação de médico cirurgião. E aprendeu, testemunhou, e vivenciou experiências as mais diversas. Vitórias e fracassos. Crescimento e aperfeiçoamento pessoal e profissional. Mas agora é hora do residente se despedir do seu mentor, encontrará a sua Beatriz e como Dante, beberá a água do Lete que apagará sua memória e seus pecados. E como num renascimento o outrora residente agora se verá no Paraíso. E se sentirá um cirurgião.
O paraíso de Dante é composto por sete céus moveis. O cirurgião no início de carreira se sentirá em muitos céus móveis. Depois como Dante é possível que chegue às estrelas fixas, verá luz, poderá ganhar prestígio e fama. E prosseguindo na caminhada poderá chegar ao décimo céu, onde encontrará uma rosa branca. Aí ele estará como Dante, sendo acompanhado por São Bernardo, que poderá ser um ou mais colegas médicos, ou até ele mesmo, por meio de sua própria consciência que poderá levá-lo até Deus.
A formação humanística deve acompanhar a formação técnica dos profissionais de saúde, notadamente daqueles que atuam invadindo o corpo e a alma de seus pacientes. Tornar-se cirurgião, um profissional, que muitas vezes terá suas decisões e ações influindo na vida de outras pessoas de uma forma definitiva é uma tarefa árdua e que ao mesmo tempo pode ser gratificante A reflexão contínua da jornada de tornar-se um cirurgião precisa fazer parte do alicerce que permitirá construir a carreira de um profissional que, muitas vezes, terá a vida de outros em suas mãos .
(*) Natural de Parnaíba, Dr. Raimundo José Cunha Araújo Junior é filho do Professor Raimundo José Cunha Araújo e da professora Maria Cleide Fontenele Araújo (em memória). Médico Cirurgião, Professor do Departamento de Cirurgia Geral e Preceptor da Residência Médica em Cirurgia Geral do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí - HU/UFPI
Editado por: Carlos Eduardo Batista de Lima
Marcelo Cunha de Andrade
Publicado no JORNAL DE CIÊNCIAS DA SAÚDE - JCS HU-UFPI Maio. - Ago. 2022; 5(2):9-12
Nenhum comentário:
Postar um comentário