quinta-feira, 17 de novembro de 2022

CRÔNICA

 


 Simplício, o menino da senzala 

José Luiz de Carvalho (*)


 


O mulato, Simplício Dias da Silva, sendo filho de uma negra escrava, Claudina Josepha e do rico empresário português Domingos Dias da Silva, nascido e criado entre a casa do seu pai e o alojamento dos negros, não poderia jamais ter cometido e nem permitido maus tratos aos negros escravos de suas fazendas e indústrias de charque. Pode-se dizer “tinha um pé da Casa Grande e outro da Senzala”, Simplício agia com benevolência com os seus parentes, sempre se posicionava em defesa dos negros, dos pobres e da liberdade, principalmente por ter uma significativa cultura da Europa, onde passou vários anos estudando e frequentando a corte portuguesa, tendo inclusive gozado da amizade e proteção da rainha louca, Dona Maria I, do reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Naquela época, a monarquia portuguesa já era em regime constituído e em algumas regiões da Europa já se respirava os anseios Republicanos.

Simplício, foi um homem adiantado no tempo de um Brasil colonial. Viveu entre 1773 e 1829.  Era na verdade um intelectual que amava a música e apreciava a pintura, dentre outras manifestações artísticas. Ele chegou a criar uma banda de música, formada somente por escravos que estudaram no Rio de janeiro e também em Lisboa. Ao longo destes mais de dois séculos, muitas histórias de domínio público(lendas) e outras escritas por ficcionistas literários fizeram desse cidadão um verdadeiro demônio, com grande prejuízo à sua memória. Fato este, que tem se alastrado nos últimos anos pois os historiadores do Piauí não têm realizado pesquisas buscando a verdade histórica da atuação dos Dias da Silva em territórios da Parnaíba.

Algumas publicações recentes, são biografias romanceadas, onde se pode misturar a realizada com a imaginação. Urge que se faça uma pesquisa histórica, baseada em documentos da época, em busca da verdade. É imprescindível que se resgate o valor do bravo homem que sacrificou parte da sua vida e da sua fortuna nas lutas em solo piauiense pela consolidação da independência do Brasil, o que impediu que o chamado “Reino do Grão Pará”, ou seja, que incluía o Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas fosse entregue aos portugueses após o grito da Independência em sete de setembro de 2022, separando-se do “Reino do Brasil” que correspondia o restante do país ou seja do Ceará até o Rio Grande do Sul.

Ainda hoje, poucas pessoas sabem o que realmente aconteceu na Praça da Graça em Parnaíba no dia 19 de outubro de 1822, e muito menos conhecem os fatos que antecederam a esse grande feito libertário e patriótico liderado por Simplício Dias da Silva, João de Deus e Silva e Leonardo de Carvalho Castelo Branco e que contou com o apoio de centenas de parnaibanos, e nem das suas consequências em Oeiras, Piracuruca, Campo Maior, no Piauí e Caxias, no Maranhão. Na verdade, com a independência do Brasil já declarada em com forte apoio popular na região Sul e Sudeste, o reino de Portugal tentou segurar pelo menos essa parte do Grão Pará, para tanto mandou que viesse fazer a ocupação e pacificação, um exército liderado pelo General João José da Silva Fidié, protagonista de várias batalhas e outros confrontos nessa região.

 

Estátua de Simplício Dias na Praça da Graça local onde 
ocorreu o grito da independência do Piauí em 19 de
outubro de 1822.

(*) poeta, contista e cronista, atual presidente da Academia Parnaibana de Letras – APAL.

 

 

 

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